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Fóssil na Bacia do Araripe é vendido na Internet por R$ 22 mil

Levantamento do OPINIÃO CE encontrou 56 espécies da Bacia do Araripe vendidas no site eBay por pessoas do...

Levantamento do OPINIÃO CE encontrou 56 espécies da Bacia do Araripe vendidas no site eBay por pessoas do Reino Unido, da Alemanha e dos Estados Unidos

Antonio Rodrigues
CORRESPONDENTE NO INTERIOR DO CEARÁ
antonio.rodrigues@opiniaoce.com.br

Decreto Lei 4.146/1942 determina que os fósseis brasileiros são propriedade da União (Reprodução/eBay)

Um fóssil da Bacia Sedimentar do Araripe, identificado como a espécie Axelrodichthys araripensis, está sendo comercializada por aproximadamente R$ 22.264,99 (€$ 3.900), no site de vendas Ebay, por um vendedor alemão. A peça foi encontrada em pesquisa realizada pela reportagem, que identificou na mesma plataforma outros 55 itens à venda por pessoas também do Reino Unido e Estados Unidos, a partir de R$ 61,51.

A Axelrodichthys araripensis, que viveu no período Cretáceo inferior, há 110 e 115 milhões de anos, está sendo vendida por um perfil chamado Rialdo1. O vendedor comercializa outros 2.463 itens, dentre eles, outros dois fósseis da Bacia do Araripe, identificados pelo paleontólogo Álamo Feitosa, que lidera o Laboratório de Paleontologia da Universidade Regional do Cariri (Urca), como as espécies de peixes Araripichthys castilhoi e Rhacolepis buccalis, à venda por cerca de R$ 3.424 e R$ 570, respectivamente.

Segundo o pesquisador, o Axelrodichthys araripensis é uma espécie marinha da fase transicional entre peixes e anfíbios, que possuía nadadeiras articuladas, “como se fosse mãos”, descreve. Fósseis dele são raros, segundo Feitosa, pois o Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens, em Santana do Cariri, só possui cerca de seis exemplares “e não estão completos como este (à venda)”, admite. Situação semelhante à do Araripichthys castilhoi:

“É um peixe difícil de encontrar. Só temos quatro exemplares”, lembra. Todas as peças, segundo o paleontólogo, pertencem à Formação Romualdo, que tem incidência em municípios como Santana do Cariri e Jardim, no Ceará, e Trindade, Araripina e Ipubi, no Pernambuco.

“Pela cor da rocha, menos orgânica e mais calcária, deve ser de Pernambuco, onde há mineração para trabalho com gesso. Lá, é feito mineração para extração de sulfato de cálcio e, para chegar até ela, passa pela Formação Romualdo”, acredita Álamo Feitosa. Após localizarmos as peças, a reportagem do jornal Opinião enviou os links das peças à venda para um representante da Procuradoria da República do Ministério Público Federal (MPF) de Juazeiro do Norte para que o caso fosse investigado.

“Vejo com muita tristeza a delapidação, a venda de nossos fósseis como se fosse um produto comum. Em termos científicos, poderia estar no museu. Cada fóssil é único. É como se fosse um freio na ciência. Ninguém sabe o cuidado que um particular terá. A ciência perde muito”, desabafou Feitosa.

Ano passado, pesquisadores da Urca encontraram outra espécie de peixe fóssil colocado à venda, de forma ilegal, no portal europeu Etsy. Identificado como a espécie Tharrhias Araripes, a peça estava sendo comercializada por R$ 1,769.85 por um perfil chamado FossilsMeteorites, que também oferece outros 548 artigos, entre eles, fósseis de várias partes do mundo. A reportagem verificou que o fóssil segue disponível para compra, agora por R$ 1,612,85.

Em 2014, situação idêntica foi flagrada pela paleontóloga Taissa Rodrigues, da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Navegando pelo eBay, encontrou um anúncio que chamou atenção: um esqueleto quase completo de pterossauro, o Anhanguera santanae, sendo colocado para leilão por cerca de US$ 250 mil, por uma empresa localizada em Charleville Mézières, na França.

Após acionar o Ministério Público Federal (MPF), uma longa investigação começou e, no início de 2019, o órgão anunciou que este exemplar e mais 45 peças da região do Cariri serão repatriadas.

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