Nascida no início da primeira década do século XXI, a geração Z é definida por sua íntima relação com a tecnologia e com o meio digital, visto que ela nasceu no momento de maior expansão tecnológica proporcionada pela popularização da internet.
Considerada por especialistas como uma geração que se relaciona predominantemente por meio de redes sociais, as pessoas nascidas no início da década de 2010 consomem, de maneira nativa, novas tecnologias que surgem ao longo dos anos.
Apontados como individualistas, os jovens dessa geração são considerados como pessoas que não possuem relações duradouras e sólidas, e julgados, muitas vezes por indivíduos de gerações anteriores, por não saberem conviver em sociedade no “mundo real”.
Apesar disso, a geração Z cresceu cercada de tecnologias que a conecta por toda a extensão do globo, o que, muitas vezes, é uma ponte para o diálogo e para o compartilhamento de diferentes visões de mundo. Fato o qual não aconteceu em épocas anteriores, quando as pessoas não possuíam acesso a tantas informações.
Para discutir a temática, o OPINIÃO CE conversou com especialistas e com a nova juventude de Fortaleza, que refletiram sobre visões de política, gênero, uso de novas tecnologias e os impactos dessas temáticas nas novas e nas antigas gerações.
Marília Matos, de 20 anos, é estudante de Psicologia e acredita que está em um momento de preparação e de descoberta. Mas, segundo ela, essa é uma definição bem atual do que é ter entre 18 e 25 anos, aproximadamente, e ser considerada jovem.
“Acredito que a concepção de juventude é histórica. Em outras palavras, penso que essa noção muda conforme são transformados os debates e as discussões sociais. Se for parar para analisar, minha vó, quando tinha minha idade, talvez já não se percebesse como jovem, pois estaria assumindo responsabilidades ou papéis, como a maternidade, que hoje não são constantemente determinados a mulheres da minha idade. Além disso, a minha geração está amadurecendo nossas escolhas para ainda exercer possíveis papéis na vida adulta”, explica.
A estudante também aponta que sua idade e o meio no qual cresceu, cercada de tecnologia e informação, influenciou nas suas percepções sobre temáticas ligadas à política e ao gênero, muitas vezes delicadas e polêmicas para pessoas mais velhas.
“A minha geração cresceu juntamente com o fortalecimento das novas tecnologias e, consequentemente, com o maior acesso aos novos debates sobre política e gênero. Logo, tivemos a oportunidade de ampliar e de ‘entrar’ mais profundamente nessas temáticas, podendo discutir sobre estigmas, que levam a prática de discriminação e exclusão de determinados grupos”.
Para ela, esse contato com diferentes visões a deixou mais aberta à mudança, o que a difere de pessoas mais velhas. “Acho que minha geração está mais aberta à novidade, que surge a partir das discussão dessas temáticas, do que as gerações passadas. Percebo que esses assuntos permitem aos jovens um maior protagonismo e uma maior possibilidade de ser enxergado pela sociedade como uma parte atuante”, afirma.
Além disso, Marília também acredita que, apesar da facilidade em tratar de assuntos mais delicados, a nova geração não deve ser taxada como liberal.
“Acredito que a ideia de ‘jovem liberal’ é fruto de uma interpretação errônea e generalista dos debates que são construídos em torno da necessidade, levantada por esse grupo, de ampliar debates sobre gênero e sexualidade. Acho que, por crescer nesse espaço de transformação, centrado nessa luta ‘ser quem você quiser ser’, consegui ter experiência positivas com questões referentes a essas temáticas. Diferentemente de outras gerações, em que esses assuntos eram recriminados, o que consequentemente, gerou no silenciamento histórico de diversos grupos. Contudo, creio que a juventude também tem muito a aprender com as gerações passadas sobre esses assuntos, principalmente no que se diz respeito à proteção e à preservação das experiências associadas à sexualidade”, afirma.
Larissa Ribeiro, de 22 anos, é estudante de Arquitetura e Urbanismo e acredita que a juventude hoje é sinônimo de escolhas e de possibilidades. “Quando pessoas de gerações anteriores pensavam na juventude, elas só tinham em mente casar, ter filhos e achar uma maneira de manter essa estrutura, que era criada muito cedo. Então, as possibilidades de alguém antes eram muito limitadas, principalmente pelo gênero e pela classe social. Hoje em dia, ser jovem é muito ligado a coisas novas, pessoas novas e possibilidades. Na minha concepção é uma fase de mudanças e de auto descobertas, não de definições”, explica.
Para ela, ter crescido numa época com tanta presença da tecnologia foi ao mesmo tempo positivo, por deixá-la em contato com muitos assuntos considerados tabus na sociedade e que não seriam facilmente discutidos, mas também negativo, por tornar as coisas muito mais passageiras e superficiais.
“Pela minha profissão, eu convivo o tempo inteiro com novas tecnologias. Para mim, talvez eu pense um pouco com a cabeça de alguém mais velho, mas muitas vezes eu não tenho tempo para acompanhar tudo de novo que aparece. Isso se abrange também para questões de lazer na internet, o tempo inteiro surgem novas redes sociais, a gente acaba não conseguindo acompanhar a evolução de tudo, é muito rápido”.
Como consequência, na concepção dela, essa velocidade, ao longo do tempo, mais afasta as pessoas de assuntos considerados importantes nas redes, do que aproxima. “Hoje em dia, por conta da grande quantidade de informações, eu acabei me distanciando um pouco da internet no que se refere a assuntos ligados principalmente à política. Além da falta de tempo, são tantas informações que muitas vezes eu não consigo digerir, então prefiro evitar”, afirma.
Apesar disso, ela considera que ter crescido cercada por muitas tecnologias e informação a ajudou a moldar opiniões bem mais críticas e conscientes sobre muitas coisas.
“Ter acesso à internet faz a gente ter uma visão de política de gênero, principalmente, bem diferente. Meus avós, tanto maternos, quanto paternos, não conseguiam ser tão ativos socialmente quanto pessoas da minha idade podem ser hoje. Quando eu pergunto: durante a ditadura, o que vocês estavam fazendo? Eles respondem que não tinham ideia de nada do que estava acontecendo. Hoje em dia uma coisa que acontece no Japão nos impacta aqui, mesmo que não seja diretamente. Isso pode até afetar um pouco a nossa saúde mental, deixando a gente mais ansioso, mas isso diferencia a gente das gerações passadas, pois esse contato talvez nos deixe bem mais empáticos”, conclui.
Esaú Souza, de 20 anos, é estudante de jornalismo e também acredita que o debate presente na internet ajudou a moldar uma nova geração mais preocupada em discutir e tornar relevantes temas delicados, geralmente ligados ao gênero e às causas LGBTQIA +.
“As plataformas virtuais realmente ampliaram esses debates, tanto em presença quanto em relevância. Hoje, você abre uma rede social e é possível que acabe lendo sobre um desses assuntos delicados, que antes mal eram falados. O diálogo vem crescendo muito, é um dos reflexos mais nítidos de uma geração que vivencia a internet desde a infância”.
O futuro jornalista entende que estar conectado o tempo inteiro é uma forma de saber lidar melhor com questões que, na vida social fora da internet, não fazem parte da sua bolha pessoal. “Acho que essa questão de estar sempre conectado é algo que tem definido muito essa geração e em alguns anos vamos ter uma noção mais detalhada do tamanho desse efeito. E isso influencia porque pelo contato maior com as redes sociais a gente acaba vendo mais relatos, mais histórias, diferentes visões. Por acompanhar vários pontos de vista, você considera essas opiniões e acaba vendo certos assuntos de uma nova forma. Não diria nem que é sobre ser influenciado, é ter a oportunidade de ver o mundo além da sua perspectiva”, afirma.
Para esclarecer os posicionamentos dos jovens que fazem parte da geração Z, o OPINIÃO CE conversou com especialistas que estudam sobre juventude, gênero e política. Para eles, o fato da nova geração já ter nascido inserida dentro de um contexto cercado por tecnologias e informação, realmente molda pessoas mais críticas e mais contextualizadas dentro da sociedade na qual vivem hoje.
Contudo, para a psicóloga Michele Veras, essa imersão pode, muitas vezes, chegar realmente a causar ansiedade. “Esse grande fluxo de informações vindo de tantos lugares diferentes pode realmente ser capaz de afetar pessoas que, apesar de tão inseridas no mundo, ainda são jovens e não estão totalmente formadas, tanto mentalmente quanto fisiologicamente falando”.
José De Castro Almeida, psicoterapeuta focado principalmente em questões envolvendo jovens e relações da juventude, afirma que, apesar das diferenças entre gerações mais velhas com a nova geração terem sido amplificadas pelas novas tecnologias, é necessário que haja um cuidado para que isso não afete relações parentais, por exemplo.
“Apesar da juventude hoje viver em um mundo mais moderno, onde mulheres têm seus direitos mais valorizados e buscam por eles, questões de gênero são mais amplamente debatidas e acontecimentos do mundo nos impactam com mais força, é preciso que muitos jovens compreendam a realidade na qual seus pais e avós foram criados”, afirma.
Para o especialista, é preciso sim que haja debate, visto que todos têm margem para evoluírem, contudo, “é necessário entender que preconceitos, muitas vezes, dificilmente são quebrados. Por isso, o debate é sim necessário, mas o respeito e a compreensão para essas pessoas que cresceram em outro mundo, praticamente, são igualmente essenciais”, explica o psicoterapeuta.
