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24 de julho de 2024

Fóssil na Bacia do Araripe é vendido na Internet por R$ 22 mil

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Levantamento do OPINIÃO CE encontrou 56 espécies da Bacia do Araripe vendidas no site eBay por pessoas do Reino Unido, da Alemanha e dos Estados Unidos

Antonio Rodrigues
CORRESPONDENTE NO INTERIOR DO CEARÁ
antonio.rodrigues@opiniaoce.com.br

Decreto Lei 4.146/1942 determina que os fósseis brasileiros são propriedade da União (Reprodução/eBay)

Um fóssil da Bacia Sedimentar do Araripe, identificado como a espécie Axelrodichthys araripensis, está sendo comercializada por aproximadamente R$ 22.264,99 (€$ 3.900), no site de vendas Ebay, por um vendedor alemão. A peça foi encontrada em pesquisa realizada pela reportagem, que identificou na mesma plataforma outros 55 itens à venda por pessoas também do Reino Unido e Estados Unidos, a partir de R$ 61,51.

A Axelrodichthys araripensis, que viveu no período Cretáceo inferior, há 110 e 115 milhões de anos, está sendo vendida por um perfil chamado Rialdo1. O vendedor comercializa outros 2.463 itens, dentre eles, outros dois fósseis da Bacia do Araripe, identificados pelo paleontólogo Álamo Feitosa, que lidera o Laboratório de Paleontologia da Universidade Regional do Cariri (Urca), como as espécies de peixes Araripichthys castilhoi e Rhacolepis buccalis, à venda por cerca de R$ 3.424 e R$ 570, respectivamente.

Segundo o pesquisador, o Axelrodichthys araripensis é uma espécie marinha da fase transicional entre peixes e anfíbios, que possuía nadadeiras articuladas, “como se fosse mãos”, descreve. Fósseis dele são raros, segundo Feitosa, pois o Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens, em Santana do Cariri, só possui cerca de seis exemplares “e não estão completos como este (à venda)”, admite. Situação semelhante à do Araripichthys castilhoi:

“É um peixe difícil de encontrar. Só temos quatro exemplares”, lembra. Todas as peças, segundo o paleontólogo, pertencem à Formação Romualdo, que tem incidência em municípios como Santana do Cariri e Jardim, no Ceará, e Trindade, Araripina e Ipubi, no Pernambuco.

“Pela cor da rocha, menos orgânica e mais calcária, deve ser de Pernambuco, onde há mineração para trabalho com gesso. Lá, é feito mineração para extração de sulfato de cálcio e, para chegar até ela, passa pela Formação Romualdo”, acredita Álamo Feitosa. Após localizarmos as peças, a reportagem do jornal Opinião enviou os links das peças à venda para um representante da Procuradoria da República do Ministério Público Federal (MPF) de Juazeiro do Norte para que o caso fosse investigado.

“Vejo com muita tristeza a delapidação, a venda de nossos fósseis como se fosse um produto comum. Em termos científicos, poderia estar no museu. Cada fóssil é único. É como se fosse um freio na ciência. Ninguém sabe o cuidado que um particular terá. A ciência perde muito”, desabafou Feitosa.

Ano passado, pesquisadores da Urca encontraram outra espécie de peixe fóssil colocado à venda, de forma ilegal, no portal europeu Etsy. Identificado como a espécie Tharrhias Araripes, a peça estava sendo comercializada por R$ 1,769.85 por um perfil chamado FossilsMeteorites, que também oferece outros 548 artigos, entre eles, fósseis de várias partes do mundo. A reportagem verificou que o fóssil segue disponível para compra, agora por R$ 1,612,85.

Em 2014, situação idêntica foi flagrada pela paleontóloga Taissa Rodrigues, da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Navegando pelo eBay, encontrou um anúncio que chamou atenção: um esqueleto quase completo de pterossauro, o Anhanguera santanae, sendo colocado para leilão por cerca de US$ 250 mil, por uma empresa localizada em Charleville Mézières, na França.

Após acionar o Ministério Público Federal (MPF), uma longa investigação começou e, no início de 2019, o órgão anunciou que este exemplar e mais 45 peças da região do Cariri serão repatriadas.

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