Um levantamento exclusivo obtido pela reportagem revela como a Maciel Construções e Terraplanagem, empresa sem histórico no setor de limpeza urbana, tornou-se peça central no consórcio responsável pela coleta de lixo de Fortaleza, contrato estimado em mais de R$ 350 milhões.
A atuação da empresa, tradicionalmente ligada à construção de estradas e terraplanagem, levantou dúvidas desde o início da contratação, marcada por controvérsias técnicas, questionamentos jurídicos e forte impacto político.
Entrada controversa no serviço de limpeza pública
A participação da Maciel no consórcio ocorreu em um contexto de crise no sistema de limpeza urbana da Capital. Em 2024, ano eleitoral, Fortaleza enfrentou um dos períodos mais críticos de acúmulo de lixo nas ruas, problema que se tornou um dos principais entraves à tentativa de reeleição do então prefeito José Sarto.
A Maciel, apontada como uma das responsáveis pela desorganização operacional do serviço, também teve participação na implantação da chamada “Taxa do Lixo”, medida extremamente impopular e que foi extinta no ano seguinte. A ausência de histórico da empresa em gestão de resíduos sólidos chamou atenção de especialistas e órgãos de controle, especialmente diante dos problemas gerados logo após sua entrada no sistema.
Histórico judicial robusto e recorrente
Documentos analisados pela reportagem mostram que a empresa acumula mais de 800 processos judiciais, a maioria de natureza trabalhista. Entre as alegações estão descumprimento de convenções coletivas, atrasos salariais, demissões questionadas e disputas relacionadas a contratos anteriores.
Além das ações trabalhistas, a Maciel também já enfrentou processos na área ambiental. A empresa foi autuada pelo Ibama por suposta extração ilegal de calcário e minério. Segundo registros consultados, todos os recursos interpostos contra as penalidades foram negados pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ).
Impacto político e questionamentos sobre governança
O contrato de limpeza urbana, um dos mais altos da administração municipal, tornou-se foco de críticas devido ao desempenho considerado insuficiente, à falta de transparência no processo de seleção das empresas e ao histórico frágil da Maciel no setor.
A combinação entre má prestação de serviços, judicialização e desgaste público foi determinante para transformar o tema da coleta de lixo em um dos símbolos da perda de capital político da gestão municipal à época.
Enquanto novas etapas de investigação continuam em andamento, o caso reacende o debate sobre governança em contratos públicos de grande porte, especialmente em setores sensíveis como a limpeza urbana, que impactam diretamente a vida cotidiana da população.
