Caio Salgueiro
ESPECIAL PARA OPINIÃO CE
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Neste domingo, 20, é comemorado o Dia da Consciência Negra em todo o Brasil. A data foi sancionada nacionalmente por lei em 2011, pela então presidente Dilma Rousseff. A comemoração foi instituída como Dia Nacional do Zumbi e da Consciência Negra, com o objetivo de suscitar questões de racismo, discriminação, igualdade e inclusão social de negros e fomentar ainda mais a importância da cultura afro-brasileira.
A população negra (pardos e pretos) é maioria no Ceará, segundo os últimos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) trimestral. Os negros somam 71,8% da população do Estado, o que representa cerca de 6,66 milhões pessoas dentre as 9,29 milhões.
No entanto, dados mostram desigualdade social entre a população de negros e brancos, como o fato de pretos e pardos terem uma maior taxa de ocupação de casas sem documentação de prioridade, com 33,6% e 29,8%, contra 21,9% de pessoas brancas. Ainda neste âmbito, a taxa de ocupação de domicílio da população branca é maior, com 76%, contra 73,4% para pretos e 71,6% para pardos.
Outro fator relacionado é ao número de cômodos nas casas, onde as pessoas brancas apresentaram maior número, com uma média de 6,6 cômodos, enquanto pretos apresentaram 5,7 e pardos 5,8. Em relação à taxa de desocupação sobre a força de trabalho, a taxa de negros foi maior, com 14,2%, contra 13,7% de brancos. Na taxa de subutilização, na qual se refere subutilizadas e que poderiam ter mais horas na força de trabalho, a população de pretos e pardos apresentou taxa de 37,6%, enquanto as pessoas brancas apresentaram 36%.
Mais um dado notório é sobre a taxa de informalidade, onde 56,7% das pessoas negras estavam na informalidade no Estado. Já os brancos estiveram em 52,8%.
SER NEGRO NO PAÍS
A estudante de psicologia, Maria Gabriele Silva, de 21 anos, fala que ser negro no Brasil é uma batalha diária. “É uma luta que a gente tenta romper todos os dias com o sistema racista, e a gente sabe que não é de hoje que as pessoas protestam. Ser negro no Brasil é sinônimo de dificuldade, de uma luta constante, de quebrar esses paradigmas, esse preconceito enraizado e esse racismo estrutural que ainda existe.” A universitária também destaca os problemas sociais que os negros vivenciam diariamente no país.
“Existem pessoas que morrem só por serem negras, que são associadas à marginalização só por serem negras, que possuem problemas com autoestima, aparência, por não terem aquela questão da representatividade, não serem contratadas por empresas por exemplo.”
Gabriele afirma ter tido dificuldades de aceitação com aparência por nunca ter visto peronsagens negros na televisão desde a infância, onde o padrão de beleza acaba sendo de mulheres brancas de olho claro e cabelo liso. “Quando há uma representatividade há sempre alguém martelando falando que é ‘mimimi’.”.
Emanuel Freitas, de 38 anos, doutor em sociologia e professor de Teoria Política na Universidade Estadual do Ceará (Uece), diz que ser negro no Brasil é ser herdeiro de um processo social secular da história brasileira de exclusão e alijamento. “Ser negro hoje é ser herdeiro de uma lenta e retardada inclusão social sob diversos aspectos, como aspectos educacioniais, de direito de representatividade política e econômicos por exemplo.”
Nauê Bernardo, de 33 anos, advogado e professor, foi sucinto ao relatar o que é ser negro no país. “Ser negro no Brasil é fazer três, quatro vezes mais do que uma pessoa branca e dificilmente alcançar os mesmos resultados.”
HISTÓRICO DA DATA
A data é feriado em estados como Alagoas, Amazonas, Amapá, Mato Grosso e Rio de Janeiro e em cidades pelo país, a exemplo de São Paulo e mais 106 municípios do estado paulista. Há um projeto de lei com objetivo de tornar a data feriado nacional, aguardando votação pela Câmara dos Deputados.
A história do Dia da Consciência Negra, no entanto, começa em 1971, com um grupo de jovens negros universitários de Porto Alegre, formado por Antônio Carlos Côrtes, Oliveira Silveira, Ilmo da Silva, Vilmar Nunes, Jorge Antônio dos Santos (Jorge Xangô) e Luiz Paulo Assis Santos, que formaram o Grupo Palmares, com a finalidade de estudar a história e cultura negra.
Os jovens argumentavam que o 13 de Maio, data da aprovação da Lei Áurea, não representava simbolicamente a luta negra no país, haja vista que os negros ficaram livres mas sem assistência alguma do Governo, sem trabalho ou estudos, tendo que se submeterem ao trabalho escravo novamente. Cortês, o líder do grupo, chama por isso de “abolição incompleta.” Os gaúchos então descobriram a data da morte de Zumbi dos Palmares, líder do Quilombo dos Palmares, o maior dos quilombos do período colonial. O dia 20 de Novembro fica idealizado como a data de celebração da Consciência Negra a partir daí. Com o Movimento Negro Unificado (MNU), em 1978, a pauta ganhou uma maior força nacional.
Depois de anos de luta do movimento negro pelo país, o Congresso aprovou em 2003 uma lei colocando o Dia da Consciência Negra no calendário escolar e obrigando o ensino da história e cultura afro-brasileira nas escolas.
