Ninguém vendia mais discos nos anos 1950 do que Nelson Gonçalves. Desde a década anterior, o cantor gaúcho conquistava fãs de uma ponta a outra no Brasil. Era o “Rei do Rádio”. O médico Everardo Silveira era um deles. Prefeito de Quixadá nos anos 1970, trouxe o artista para uma apresentação em sua terra. Um artista de primeira grandeza no Sertão Central: era imperdível. No dia da apresentação, um homem foi esfaqueado e ficou às portas da morte.
O prefeito deu lugar ao médico. Everardo Silveira ficou com o paciente, um procedimento demorado que, por fim, terminou bem.
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Enquanto o prefeito lutava pela vida do paciente, a cidade cantava com Nelson Gonçalves. O cantor veio, subiu ao palco, encantou a multidão e foi embora. O fã Everardo Silveira não encontrou o ídolo. Continuou ouvindo Nelson em seus discos e no rádio e deixou essa história para ilustrar sua dedicação aos ofícios que abraçou.
Dois anos após sua morte, Everardo Silveira não se deixou esquecer no Sertão Central. Personagem importante na história de Quixadá, emprestará seu nome ao hospital municipal, que começou a se erguer no município. A escolha é apropriada. Silveira não foi apenas uma figura marcante na vida política da cidade e de toda a região. Deixou uma contribuição significativa, e ainda lembrada, como médico, próximo da população e dedicado aos pacientes.
Relator-geral da Constituinte estadual de 1989, ex-deputado estadual por quatro mandatos e ex-prefeito de Quixadá, o médico Everardo Silveira construiu uma das mais longevas e respeitadas trajetórias políticas do interior do Ceará. Natural de Baturité, com formação em Medicina pela Universidade Federal do Ceará, ele se radicou em Quixadá, onde conciliou o exercício da profissão médica com o engajamento político que o levaria a ocupar cargos no Executivo e no Legislativo ao longo de mais de três décadas.
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VIDA POLÍTICA
Silveira foi prefeito de Quixadá entre 1971 e 1974. Eleito deputado estadual pela primeira vez em 1978, permaneceu na Assembleia Legislativa até 1995, tendo papel de destaque nos trabalhos da Assembleia Constituinte Estadual, promulgada em 5 de outubro de 1989. No processo constituinte, além de relator-geral, presidiu a Comissão de Sondagens e Propostas e integrou a Comissão de Revisão Final. A relatoria foi assumida por ele em junho de 1989, após renúncia do então relator Alceu Coutinho, sendo eleito por aclamação.

Durante os trabalhos, chegou a ser questionado por não ter formação jurídica. Em entrevistas posteriores, destacou que sua experiência como médico lhe conferia capacidade de análise e senso prático para conduzir o processo. A condução equilibrada dos debates rendeu a ele reconhecimento de parlamentares de diferentes partidos ao final da Constituinte, que considerou o episódio o momento mais importante de sua vida política.
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Com forte base eleitoral em Quixadá e Ibaretama, Everardo Silveira teve atuação relevante também no processo de emancipação de diversos municípios cearenses no fim dos anos 1980 e início dos anos 1990, entre eles Banabuiú, Ibicuitinga, Choró, Horizonte e Ibaretama. Já no início dos anos 2000, foi vice-prefeito de Ibaretama, entre 2001 e 2004, município cuja criação ele havia apoiado anos antes.
EDUCAÇÃO
Além da atuação parlamentar, foi um dos articuladores da criação da Faculdade de Educação, Ciências e Letras do Sertão Central (Feclesc), unidade acadêmica da Universidade Estadual do Ceará (Uece) sediada em Quixadá. A implantação do curso superior no município foi uma das pautas que mais mobilizou Silveira durante seus mandatos.
Médico de formação e atuação, nunca deixou de atender, mesmo enquanto ocupava funções públicas. Era conhecido por manter o consultório aberto a pacientes de toda a região e por oferecer atendimento gratuito a pessoas de baixa renda. O vínculo com a população, construído tanto na atuação política quanto no trabalho como médico, foi determinante para a longevidade de sua vida pública.
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Durante o primeiro mandato do então governador Tasso Jereissati, Everardo Silveira integrou a base de apoio parlamentar às propostas de ajuste fiscal e modernização da administração pública, iniciativas que marcaram a chamada fase do “governo das mudanças” no Ceará.
LEGADO
Everardo Silveira faleceu no dia 20 de junho de 2023, aos 88 anos, em decorrência de um câncer. Ele era pai de seis filhos, entre eles Ricardo Silveira, médico e atual prefeito de Quixadá, e Amílcar Silveira, presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Ceará (Faec). Também deixou a esposa, Marilac Silveira, e oito netos.
Ao longo de sua trajetória, construiu pontes entre a medicina e a política, com atuação marcada pela prestação de serviços, defesa do interior cearense e comprometimento com o desenvolvimento da região do Sertão Central.
