Voltar ao topo

21 de julho de 2024

Estudo do IBGE sobre orientação sexual aponta para riscos, afirmam especialistas

Compartilhar:

Segundo a pesquisa, cerca de 81 mil pessoas se declararam homossexuais ou bissexuais no Ceará em 2019, ou seja, 1,2% da população adulta, maior de 18 anos, entrevistada

Priscila Baima
priscila.baima@opiniaoce.com.br

Foto: Natinho Rodrigues

Diante dos resultados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) – Quesito Orientação Sexual, divulgada na última quarta-feira, 25, pelo Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE), especialistas afirmam que o número baixo de autodeclarações sobre orientações sexuais está ligado diretamente à discriminação contra pessoas LGBQIA+ e o medo de sofrerem retaliações da sociedade.

Segundo o estudo, somente cerca de 81 mil pessoas se declararam homossexuais ou bissexuais no Ceará em 2019, o que correspondia – levando em conta o contingente populacional do período referenciado – a 1,2% da população adulta, maior de 18 anos, entrevistada pelos técnicos do instituto. Em nota ao OPINIÃO CE, técnicos da PNS disseram que não foram perguntandos os motivos pelos quais as pessoas não quiseram declarar sua orientação sexual

No entanto, na avaliação do IBGE sabe-se que “existe um receio da população homossexual e bissexual de expor sua orientação, tendo em vista o estigma e o preconceito, principalmente em cidades pequenas, onde esse tema costuma ser mais sensível.”

Esta foi a primeira vez que o instituto coletou dados sobre a orientação sexual da população brasileira. As informações foram divulgadas em caráter experimental. Os dados refletem pesquisas semelhantes realizadas em outros países.

No levantamento, havia 6,8 milhões de pessoas com 18 anos ou mais no Estado. Do total, 94,5% se declararam heterossexuais e 4,2% não sabiam sua orientação sexual ou não quiseram responder. O último percentual equivale a 287 mil pessoas com 18 anos ou mais.

Para o doutor em Antropologia e professor de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará (UFC), Martinho Tota, especialista em gênero, sexualidade e etnicidade, o número trazido pela pesquisa é muito baixo. Segundo o docente, na Antropologia, a principal metodologia de pesquisa é qualitativa e, para se apreender informações importantes, é preciso ter tempo de convivência com as pessoas serão entrevistadas.

“É uma regra. Você só vai conseguir boas informações e bons dados se conquistar a confiança das pessoas entrevistadas. Quando se trata de questões mais íntimas, como a da sexualidade, é mais difícil. Se os técnicos das pesquisas chegam abordando de uma maneira muito direta as pessoas sobre suas orientações sexuais, sem sombra de dúvidas, muitas pessoas não vão se sentir à vontade por conta do preconceito e discriminação. É assim também no ambiente hospitalar, por exemplo.”

Outro fator que deve ser aprimorado para futuras pesquisas nesse âmbito, conforme o antropólogo, é rever a abordagem e o recorte, que não pode está isolado de gênero, idade, renda, raça, classe socioeconômica e nível de escolaridade. “Há uma série de variáveis. Têm pessoas que sequer sabem o que é a heterossexualidade. Como é a pergunta está sendo feita? As pessoas entendem? Nem todo mundo entende o que se está respondendo.”

Tota reforça ainda que vai ser um desafio enorme para conseguir o mapeamento desse grupo no futuro. “Essa pesquisa já foi um avanço do IBGE. Após isso, é um longo caminho para se aprimorar os próximos levantamentos. O primeiro passo já foi dado, mas o IBGE precisa ter recursos para tratar esse tipo de pesquisa.”

“Imagino como é chegar nos municípios menores ou mesmo na periferia das cidades maiores levando essas questões. Se identificar de acordo com as categorias traçadas para classificar orientação sexual e identidade de gênero exige informações que a maioria das pessoas não têm. Inclusive, confundem uma categoria com a outra. Além disso, não são categorias fixas nem definidas de forma absoluta, elas podem se modificar ao longo da vida da pessoa”, adensa Hugo Nogueira, mestre em Psicologia com foco em transexualidade.

Para Tota, “há um retrocesso de políticas públicas voltadas para a população LGBTQIA+, principalmente por essa nova onda do conservadorismo e da ala evangélica. É tanta opressão, que muitas pessoas evitam tocar no assunto. As pessoas têm medo do estigma e da morte social. E não é só no Brasil que isso acontece. Essa onda neoconservadora acontece em vários países do Mundo.”

“Podemos pensar que essa violência criminosa acaba levando ao primeiro sentido: chamamos de LGBTfobia internalizada, isto é, pessoas que sofrem esse tipo de violência passam a cometer esse tipo de violência contra si próprias, passam a considerar que sua própria orientação sexual – ou até mesmo a identidade de gênero – é uma doença, um crime, um pecado ou diferentes combinações dessas características. Uma pessoa que tem esse tipo de visão em relação a si mesma não vai querer se identificar como LGBTQIA+,” acrescenta Nogueira.

[ Mais notícias ]