Senador pelo Ceará, Eduardo Girão (Novo) é também empresário, atuando nas áreas de hotelaria, transporte de valores e segurança privada, e tem participação atuante no Congresso Nacional. Em 2004, fundou a Associação Estação da Luz, entidade sem fins lucrativos de atuação na área social e responsável por produções audiovisuais do cinema brasileiro. Em 2017, assumiu a presidência do Fortaleza Esporte Clube.
Após ser eleito ao Senado Federal, em 2018, com 1.325.786 de votos, chegou a votar contra Decreto das Armas do governo do então presidente Jair Bolsonaro (PL). Em março de 2021, foi autor de um requerimento pela instalação de uma comissão parlamentar de inquérito (CPI), no Senado Federal, que investigasse a União, estados e municípios por eventuais irregularidades no uso de recursos federais destinados ao combate à pandemia de covid-19 no Brasil.
Em entrevista exclusiva ao OPINIÃO CE, Girão fala sobre seu destino político, pautas defendidas no Congresso e sobre seu destino na vida pública: ele é um possível nome a candidato à Prefeitura de Fortaleza, em 2024, ou Governo do Ceará, em 2026. Girão também é titular da CPMI do 8 de janeiro, instalada na ultima semana, que investiga os atos antidemocráticos de invasão e depredação das sedes do Congresso Nacional, do Palácio do Planalto e do Supremo Tribunal da Justiça.
OPINIÃO CE: QUAL SEU FUTURO POLÍTICO?
EDUARDO GIRÃO: Em tudo que eu entro, eu mergulho de cabeça. O Senado, para mim, eu vejo como uma missão de vida, então eu acabo somatizando aquela angústia de ver certas pautas retrocederem, por exemplo, o enfrentamento à corrupção e à impunidade no Brasil. Eu vejo que oito anos dentro do Senado é muito tempo. Por princípio, eu sou contra a reeleição, coloquei isso nas minhas propostas, e vejo que tem muita mordomia ali, muita coisa que não bate com a realidade das pessoas no dia a dia. Eu renunciei isso tudo desde o início e tenho feito o meu trabalho: sou o que mais tem presença dentro do Senado Federal – nunca faltei uma sessão durante esse período -, um dos parlamentares que mais têm respeito ao dinheiro público ali dentro e, se eu não me engano, estou em 7 comissões e tenho conseguido levar nossas pautas, defender algumas e avançar com outras.
Mas eu vejo o seguinte, eu entrei na política como missão, então eu não tenho essa expectativa como geralmente os políticos têm de “querer ser isso para depois ir para esse ponto”. Eu vejo a coisa muito desapegada, muito desprendida. Por exemplo, a minha campanha para o Senado foi uma campanha que poucos sabem, mas, na época, a ideia era que eu fosse candidato a deputado federal. Eu fiz da campanha do Senado uma ideia de levar a mensagem durante toda a campanha, todas as pautas que eu defendo foram colocadas, claramente, durante a campanha. E a motivação da cidadania das pessoas de entenderem a pauta que eu estava levando, entenderem a causa, isso, pra mim, era a vitória. Mas Deus abençoou que um milagre acontecesse e eu fui pro Senado. Eu sou de muita fé, então eu acho que se Deus me colocou nesse xadrez, se eu estou no jogo, tenho que jogar. Não como as pessoas às vezes jogam, mas dentro dos meus valores e meus princípios.
Eu estou num partido que está dando uma repaginada muito grande, que é o partido Novo, que começou muito bem, depois teve problemas internos e depurou. Eu vejo que o Novo está muito competitivo. Sempre admirei o Novo como partido diferente, gostava das pautas contra privilégio, contra corrupção. Esse partido tem planos de crescer; é um partido que tem uma pauta que a sociedade está entendendo agora também; tem uma política coerente entre o pensar, o falar e o agir.
OPINIÃO CE: JÁ HÁ ALGUM DEBATE SOBRE SUCESSÃO EM FORTALEZA?
EDUARDO GIRÃO: O partido está discutindo isso. Temos ótimos nomes dentro do partido, têm pessoas que querem vir para o partido, pessoas da sociedade, empreendedores, pessoas da área social. Eu gosto de caminhar assim, com essas pessoas e sem protagonismo. O Novo não é um partido que tem dono, diferente da maioria dos partidos. Se tiver que sair um prefeito, não é decisão do presidente do partido, é uma decisão de um colegiado, uma coisa que tem um processo de seleção. Eu me sinto muito bem em trabalhar com o partido. Eu sou o único senador do Novo, o primeiro da história, primeiro mandatário do Norte/Nordeste, o que é uma responsabilidade grande. E eu vim numa lógica que não é da política, os políticos não entenderam. Se eu tivesse interesse político apenas em projetos de poder, eu teria ido para um partido que tem tempo de TV, tempo de debate. Então eu estou indo para o Novo porque é uma coisa que eu acredito, porque acredito nas propostas.

OPINIÃO CE: VOCÊ É UM DOS COTADOS PARA A PREFEITURA DE FORTALEZA?
EDUARDO GIRÃO: Eu estou no tabuleiro. Não sei se para prefeito ou governador. Para o legislativo, eu acho que a minha contribuição está sendo dada todos os dias, e repito, oito anos no Senado é muito tempo. Claro que nós pensamos em alguém para o Senado, não eu, mas vou me engajar para termos um candidato ao Senado. Daqui para lá, eu quero participar desse tabuleiro. Não digo nem como candidato, não necessariamente, mas como uma pessoa que possa estar crescendo com o grupo, debatendo ideias. E o Novo precisa ter esse caminho, deve ter candidato, principalmente aqui no Ceará onde nunca teve uma candidatura majoritária. É uma coisa natural de um partido que é diferenciado, que tem os seus princípios e valores.
OPINIÃO CE: NA SUA AVALIAÇÃO, É POSSÍVEL A DIREITA SE UNIR NO CEARÁ EM 2024?
EDUARDO GIRÃO: Eu acho que o diálogo é sempre importante. Temos uma oligarquia que manda e desmanda no Estado do Ceará há muitos anos. Recentemente, eu fui à Praia do Futuro visitar uma instituição que tivemos oportunidade de destinar equipamentos das emendas parlamentares. Fui ver como está a aplicação no dia a dia e fiquei impressionado em saber que a Prefeitura de Fortaleza cortou 20% do atendimento às pessoas que a instituição atende, que são crianças autistas, pessoas com deficiência mental, com síndrome de down. Algo inexplicável fazer um corte desses enquanto se gasta uma fortuna nessa região que já tem uma estrutura boa, e não se olha para um atendimento desse. Então, temos uma cooptação muito grande. PT e PDT são governos da cooptação, do projeto do poder pelo poder. E eu vejo que as pessoas estão cansadas disso.
Eu acredito que a direita, a nível nacional, está se reinventando. Aqui no Ceará existe bom diálogo, por exemplo, com o Capitão Wagner, com o deputado André Fernandes, com o deputado Carmelo Neto. A gente tem muitas convergências. Mas eu acredito que, talvez no segundo turno, isso possa estar junto, é uma tendência natural. Eu não avalio pessoas, avalio ideias. Eu acho que a gente tem bons nomes aqui em Fortaleza para tentar fazer a tão sonhada alternância de poder.
OPINIÃO CE – O QUE VOCÊ ACHA DA DECISÃO DA JUSTIÇA EM CASSAR QUATRO DEPUTADOS AQUI NO CEARÁ E O SÉRGIO MORO?
EDUARDO GIRÃO: Está muito evidente, até pelas decisões. Vamos pegar o caso do deputado Deltan Dellagnol, que foi o que movimentou o país. Para ser bem objetivo, é a cassada a um lado só: o lado dos conservadores. Isso não é bom para a democracia, porque os primeiros que deveriam resguardar a nossa Constituição, estão rasgando ela com o objetivo de calar um lado. Nós estamos numa transição de democracia para ditadura. Essa transição é vigorosa e o que me preocupa é o alinhamento do governo Lula com o STF.
OPINIÃO CE: QUAL SUA EXPECTATIVA PARA A CPMI DO 8 DE JANEIRO?
EDUARDO GIRÃO: Sou titular nesta CPMI. Vou falar uma frase que é uma coisa um pouco pesada, mas é para as pessoas entenderem a importância disso. É como se você tivesse um “defunto na sala”. Ninguém quer olhar para aquilo, mas a população quer saber qual foi a autópsia para poder enterrar. Sai vazamento de imagem, tem uma narrativa que o governo Lula se diz vítima, porém ele não quer investigar. Como quem se diz vítima não quer investigar? Então tem alguma coisa que não bate nessa história.
Quem errou, seja de direita, seja de centro ou de esquerda, tem que pagar. Se tiver que chamar gente do governo anterior para ouvir, eu voto a favor. Agora, eu quero entender também a omissão do governo Lula, porque é crime no Brasil. A Abin informou, dois dias antes, para 48 órgãos do Governo Federal, que o objetivo dos atos era destruir fisicamente, inclusive com arma de fogo, o Senado, Câmara, Palácio do Planalto e STF. Por que a guarda presidencial estava dando água para o pessoal como se estivesse recebendo um grupo de visitantes? O que foi exatamente que aconteceu ali? Por que a guarda foi desmobilizada?

OPINIÃO CE: QUAL O CLIMA NO SENADO PARA ESTA COMISSÃO?
EDUARDO GIRÃO: Há duas, três semanas o governo Lula não queria a CPMI. Segundo a mídia, ele estava oferecendo dezenas de milhões de reais para parlamentares tirarem as assinaturas, fora cargos federais que estavam sendo distribuídos. Mas eles não conseguiram porque a sociedade ficou em cima, inclusive o Deltan era um que todo dia botava o nome, por isso aconteceu o que aconteceu. Ali foi uma vingança. Quando vazaram as imagens do general do Lula servindo água, quando começaram a não entender porquê a força de segurança também não estava com o efetivo máximo, aí o governo quis investigar e, usando a força, ocupar a presidência e a relatoria da comissão. A CPMI é instrumento da minoria de oposição, e eles querem ocupar isso para sabotar, boicotar.
OPINIÃO CE – QUAL SERÁ A CONTRIBUIÇÃO DO SENADOR CID NESSA COMISSÃO?
EDUARDO GIRÃO: O Cid tem uma posição formada. Ele tem uma posição muito clara que é da narrativa do governo Lula. É o direito que ele tem de participar, a senadora Augusta Brito também vai participar como suplente. Vamos ter os três senadores do Ceará dentro desta comissão e vamos fazer um trabalho técnico. A minha parte vai ser independente. Eu acho que a verdade, mesmo que queiram blindar, vai aparecer. Só espero que não tenha lacração, nem de um lado nem do outro, porque perde a técnica do negócio.
OPINIÃO CE: VOCÊ TIRA ALGUMA LIÇÃO DA CPI DA PANDEMIA, NO ANO PASSADO?
EDUARDO GIRÃO: Foi uma experiência interessante a da CPI, porque ali eu estava, e estarei de novo, entre os extremos. Tinha um grupo que defendia o Bolsonaro e tinha um grupo que defendia a oposição para desgastar o governo com interesse eleitoral. Meu posicionamento foi defender o Brasil naquilo que estava acontecendo. Meu relatório recomendava mais investigação na vacina covaxin, dizia que o presidente Bolsonaro tinha errado na condução da pandemia ao fazer aglomeração e falar mal das vacinas.
A mídia me botava como bolsonarista, coisa que eu não sou. Eu fui um dos líderes para derrubar o decreto de arma de fogo, que é uma das principais bandeiras bolsonaristas. Querem colocar que ou você é de lado ou é de outro, mas não existe isso. Eu sou Brasil. Tem que chamar o Bolsonaro? Chama. Tem que chamar o Lula? Chama. No governo Bolsonaro, eu fui um senador independente. Nesse agora, eu sou de oposição, mas não vou fazer jogo de ninguém, vou tentar levar a coisa para técnica.
