Ensino, pesquisa e conhecimento

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Agora, após dois anos, as orientações de alunos voltaram acontecer de forma presencial, face-to-face. Numa tarde de quinta, eis que chega um aluno do curso de Direito, um pouco mais jovem que eu e fala do seu interesse de pesquisa sobre a falta de entendimento e compreensão dos jovens sobre o regime civil-militar e, logo, apresentou-me o projeto. Na semana seguinte, ao finalizar a leitura do trabalho e, diante de tantas informações, citações de historiadores e bibliográficas de referência, perguntei-lhe: Você vai dar conta disso? Você já leu esse livro, “1964: A Conquista do Estado” que você fez citação do René Dreyfuss? Diante da resposta positiva e da decisão pelo tema, “O golpe civil-militar no Brasil e justiça de transição” – valia a pena.

Particularmente, eu tive contato com esses historiadores estrangeiros ditos brasilianistas como o Dreyfuss, por volta de 1984. Pois é, ele deixa claro que o golpe de 1964, foi articulado e organizado não apenas por militares, mas por civis resultando numa ação política, ideológica e financeira das elites empresariais sobre as classes médias alienadas e de certa forma passivas. Órgãos como: o IPES (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais) e o IBAD (Instituto Brasileiro de Ação Democrática) tiveram ações determinantes.

O IBAD, por exemplo, fundado no final da década de 1950, foi uma entidade conservadora com a finalidade de afastar a propagação do comunismo no território nacional. Segundo o historiador, Renné Dreyfuss: “…Até outubro de 1961, ele havia estabelecido firmes contatos com João Mendes da Costa Filho, da Ação Democrática Parlamentar – ADP, que se tornou um canal do IBAD no Congresso. O IBAD influenciou e penetrou no legislativo e nos governos estaduais, interveio em assuntos eleitorais nacionais e regionais e apoiou alguns sindicatos em particular. O IBAD ligou-se também à organização tecno-clerical de direita Opus Dei”.

Segundo os historiadores de plantão e explicado pelo aluno, o IBAD “recebia recursos financeiros do empresariado nacional e estrangeiro. Anos depois o embaixador dos Estados Unidos no Brasil nesse período, Lincoln Gordon, confirmou a presença de dinheiro estadunidense nas eleições de 1962. Com essa importância arrecadada fez doação a candidatos que faziam oposição ao presidente João Goulart”.

Além da grana, o jornalista Elio Gaspari em seu livro, A Ditadura Derrotada demonstra que o IPES, utilizava como propaganda ideológica, filmes e programas de rádio, assim como “patrocinava editoriais e reportagens na imprensa”. Vixe! Esse filme não está na moda outra vez! Como não houve no Brasil uma Justiça de Transição como em outros países da América Latina após o fim da ditadura – eis a pergunta do aluno Lauro que defendeu o trabalho: “Defender esse regime de exceção, querer uma nova reedição do Ato Institucional nº 5 e homenagear torturador não é condizente com o ordenamento jurídico brasileiro”. Viva o ensino, a pesquisa e a extensão!

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