Pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC) descobriram que o grafite natural extraído de Canindé pode ser transformado em nanoplacas com propriedades muito próximas às do grafeno, um dos materiais mais promissores da atualidade, conhecido por ser leve, resistente e excelente condutor de eletricidade e calor.
O estudo foi destaque na revista científica internacional Materials, referência mundial na área de engenharia de materiais.
O grafeno tem origem na grafita, a mesma substância usada nas pontas de lápis, mas sua estrutura é muito mais refinada. Enquanto a grafita é formada por várias camadas de átomos de carbono empilhadas, o grafeno possui apenas uma ou poucas camadas, o que garante características excepcionais, como uma resistência cem vezes maior que a do aço e altíssima condutividade elétrica e térmica.
Mesmo com seu potencial, produzir grafeno puro em grande escala ainda é um desafio devido ao alto custo e à instabilidade dos métodos disponíveis. Por isso, as chamadas nanoplacas de grafeno, obtidas a partir do tratamento do grafite, vêm sendo estudadas como alternativas mais acessíveis e duráveis.
“As nanoplacas, especialmente as com menos de cinco camadas, apresentam propriedades semelhantes às do grafeno puro, mas com maior estabilidade e custo reduzido”, explica a professora Lucilene Santos, do Departamento de Geologia da UFC, que integra a equipe de pesquisa.
A equipe da universidade cearense desenvolveu métodos para purificar e processar o grafite extraído em Canindé, cidade localizada a cerca de 110 quilômetros de Fortaleza.

Como funciona
As amostras foram cedidas por uma mineradora da região, e estudos iniciais apontam a existência de pelo menos 2,7 milhões de toneladas do mineral no município. Segundo Lucilene, o material apresenta alto nível de pureza e cristalinidade.
Com os resultados laboratoriais positivos, os pesquisadores se preparam agora para testar o processo em escala ampliada e avaliar o uso do material em produtos reais. Setores como o de baterias, revestimentos e compósitos já utilizam derivados de grafeno em outros países, e a expectativa é que o Ceará possa participar dessa nova cadeia produtiva.
Além das aplicações industriais, o material também tem potencial em soluções ambientais, como filtros para remoção de metais pesados e biossensores para diagnóstico rápido de doenças.
A iniciativa recebeu apoio financeiro do Programa Centelha, que reúne o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap) e a Fundação CERTI, com execução local da Funcap. A empresa Breex Mining e Tecnologia Mineral Ltda., sediada em Canindé, também participa do financiamento do estudo.
