Com o avanço da nanotecnologia e a biotecnologia, a medicina vem encontrando soluções para uma das doenças com tratamento mais doloroso: o câncer.
A nanotecnologia é a área da ciência que manipula a matéria em escalas extremamente pequenas (um nanômetro corresponde a um milionésimo de milímetro), o que permite ajustes com maior exatidão e que os fármacos sejam utilizados em doses menores.
Na medicina, a nanopartícula mais conhecida é a da vacina de RNA mensageiro para covid-19, uma nanopartícula lipídica que facilita a entrega de RNA nas células.
Diante das novas oportunidades, pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC) estão avançando no uso da nanotecnologia para criar medicamentos mais eficazes no combate à doença. O tratamento, que rendeu uma nova patente à instituição, é capaz de levar princípios ativos diretamente às células tumorais sem afetar tecidos saudáveis.
Isso promete aumentar a taxa de sucesso dos tratamentos, reduzir contraindicações e amenizar efeitos colaterais.
Chamada de “cápsula inteligente”, o tratamento pode ser usado contra o câncer de próstata, um dos mais prevalentes e letais entre homens. A nanoformulação foi testada com o docetaxel, quimioterápico usado no tratamento do câncer de próstata metastático, que é o estágio avançado da doença, quando ela se espalha e forma novos tumores em outras partes do corpo.
O QUE É A CÁPSULA
Com nome técnico de nanocarreador, a cápsula usa como base lipossomas, que são minúsculas vesículas de gordura com propriedades atrativas, como biocompatibilidade e biodegradabilidade. A essa composição foram adicionados dois componentes lipídicos: dioleoilfosfatidiletanolamina (DOPE) e hemisuccinato de colesterila (CHEMS), conforme detalhes divulgados pela UFC.
“O anticorpo funciona como uma ‘chave’, que se liga à ‘fechadura’, que é a célula de câncer. Dessa forma, o docetaxel é liberado principalmente no local onde deve atuar, no tumor, potencializando a ação e reduzindo efeitos colaterais”, explica um dos participantes do estudo, o professor Josimar de Oliveira Eloy, do Departamento de Farmácia e coordenador do Grupo de Pesquisa em Nanotecnologia Farmacêutica (GPNANO) da UFC.
A inovação foi patenteada pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), à UFC e à Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), que também participou da pesquisa. ”
Não podemos deixar de considerar que o cetuximabe já está disponível na clínica, para tratamento de câncer colorretal e câncer de cabeça e pescoço. Dessa forma, estamos contribuindo com evidências para o uso também no tratamento do câncer de próstata”, completa o pesquisador.
OUTROS TRATAMENTOS
Outros tratamentos contra o câncer desenvolvidos na UFC com nanotecnologia aplicada à ciência farmacêutica já receberam cartas-patente, sendo dois também contra o câncer de próstata, doença responsável por 17 mil mortes no Brasil em 2023, segundo o Ministério da Saúde.
Um deles também trabalha com encapsulamento inteligente, mas para o fármaco cabazitaxel. Assim como o docetaxel, ele atua inibindo a divisão das células tumorais, mas é reservado para casos em que o câncer não responde mais ao docetaxel.
Atualmente já há produtos baseados em nanotecnologia disponíveis para o tratamento do câncer, porém nenhum com este tipo específico de formulação patenteada à UFC. Um artigo sobre o trabalho foi publicado na revista científica Pharmaceutics, posicionada no primeiro quartil (Q1) da categoria “Farmacologia e Farmácia”, o que significa fazer parte dos 25% melhores periódicos da área.
Após o sucesso dos ensaios in vitro, a pesquisa segue em andamento com estudos do efeito antitumoral em camundongos.
Além de Josimar Eloy, participam da equipe os pesquisadores Bianca Rodrigues Faria Vasconcelos, Thais da Silva Moreira, Alan Denis Olivindo Silva, Elias da Silva Santos, Ana Carolina Cruz de Sousa, Cláudia do Ó Pessoa e Raquel Petrilli Eloy, todos atualmente na UFC.
