Como de costume, o mês de janeiro traz grandes liquidações para a área do comércio. Segundo Christian Avesque, professor da Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL) e mestre em administração de empresas, há uma expectativa de crescimento de 8% a 15% em âmbito nacional para as vendas do comércio neste mês de janeiro em relação ao ano passado. Ainda conforme ele, os shoppings centers e os comércios de rua estão esperando um aumento de até 10% no tráfego dos clientes neste começo de ano. Ao OPINIÃO CE, o especialista falou sobre os fatores que podem contribuir ou desfavorecer para a previsão.
Christian aponta, entre os pontos positivos, fatores “macro” e “micro”. Os macro, no caso, se referem àquelas causas que englobam decisões políticas e o cenário econômico. Conforme o professor, os fatores no âmbito macro são: inflação mais controlada, recuperação da renda, aumento do emprego formal e o programa Desenrola Brasil. Iniciativa do Governo do presidente Lula (PT), o Desenrola é um programa de renegociação de créditos inadimplentes, no qual o objetivo é recuperar as condições de crédito de devedores que possuam dívidas negativadas. “Trouxe mais de 20 milhões de pessoas de novo ao mercado de crédito”, disse Christian.
“O CALENDÁRIO DAS GRANDES LIQUIDAÇÕES É EM JANEIRO”
A reportagem também ouviu Gilson Carneiro, gerente-geral da Top Móveis. Segundo o lojista, o mês de janeiro já virou tradição. “Por volta de seis meses antes, nós já entramos em contato com os nossos fornecedores, com preços de mercadoria diferenciados, para quando chegar esse mês de janeiro nós fazermos a liquidação”, afirmou. Na época, de acordo com Gilson, a loja tem um crescimento de 30% a 35% em relação aos meses anteriores. “Só vendemos mais do que janeiro na Black Friday”. Para este ano, a Top Móveis está fazendo uma marcação de 50% a 70% de desconto nos seus produtos. A campanha, conforme Carneiro, já está no ar desde a última terça, no primeiro dia útil do ano. “Nos dois primeiros dias, a venda foi muito boa”, explicou.
Até por volta do dia 20 do mês, segundo ele, as vendas costumam ser “bem agitadas”. Depois, elas tendem a diminuir. “Os motivos para isso é porque os cartões já começam a virar para o próximo mês e as pessoas já fizeram suas programações do que precisam comprar. Depois do dia 20, a pessoa já começa a pensar em jogar as parcelas para o próximo mês”.
Como completou o professor Christian, “o calendário das grandes liquidações é em janeiro”. “A nossa Black Friday não era para ser em novembro. Historicamente, a gente tem uma cultura de comprar os presentes de Natal e as lembrancinhas até o Natal, e as compras de uso pessoal, para a casa, compras em uma quantidade maior, a gente sempre deixou para janeiro”.
“Esse hábito foi muito importante até a pandemia [de covid-19]. Com a pandemia, como a gente estava muito em casa, essa data ficou um pouco esquecida, mas ela foi retomada muito forte desde o ano passado e sobretudo neste ano”, comemorou.
O início de ano, segundo o especialista, é uma data “muito importante” também para o empresário. “O empresário precisa limpar o estoque dele até o dia 20 ou 25 de janeiro. Para ele recompor o estoque, principalmente na área de moda, se ele não gira [o estoque] em 90, 100 ou 120 dias, ele perde a atratividade”, disse. “O lojista precisa vender também nesse mês porque ele tem que arcar com os impostos do final do ano. Impostos ligados ao décimo terceiro que ele vai começar a pagar agora em janeiro, impostos ligados ao ICMS sobre a venda do mês de dezembro… Ele precisa ter liquidez em caixa, ou seja, dinheiro na conta corrente, e quando ele faz a liquidação, ele perde um pouco na margem, mas entra mais dinheiro líquido no caixa”, continuou.
Como explicou ele, na liquidação – que no mês de janeiro costuma abranger produtos como peças de vestuário, calçados, eletroeletrônicos, eletrodomésticos e materiais de decoração -, os lojistas têm que se ater a “dois pilares” principais. O primeiro diz respeito aos “produtos isca”. “É um produto que tem alta rotatividade, vende muito e tem alta procura”. O segundo pilar, como completou Christian, se refere aos estímulos aos clientes. “Quando o cliente dentro da loja, ofereça estímulos como kits, combos, packs, cashback em dobro, voucher de presente, ‘leve 3, pague 2’… porque uma vez ele entrando na loja, ele precisa encontrar outros gatilhos promocionais. Se você tiver esses dois pilares, a probabilidade de você ter sucesso na sua venda é grande”, afirmou.
FATORES
Todos os fatores levam à “confiança do consumidor”, segundo o professor Christian. “Ele [o consumidor] se sente mais preparado e sente menos medo de comprar mais do que o próprio salário dele permite”, afirmou. “Então ele tem uma tendência de soltar mais o freio de compra e comprar em uma quantidade de itens maior”, explicou.
Outros dois fatores micro – que advêm das peculiaridades de cada consumidor – também podem influenciar positivamente para que seja observado o crescimento do comércio. O primeiro, segundo o especialista, é que o consumidor já se prepara para comprar os produtos que precisa para o início do ano ainda em dezembro. “Esse comportamento é muito forte. O consumidor tira ‘print’ dos produtos que quer comprar, porque já sabe que no mês de dezembro os preços ficam um pouco mais altos”. O segundo fator diz respeito aos impostos que ele paga no começo do ano. Conforme Christian, as taxas estão com “muitos descontos” e parceladas, fazendo com que sobrem recursos para que o consumidor possa comprar itens de consumo.
“Podemos colocar outro fator que é importante aqui em Fortaleza. O turista que vem para cá, além de ir para as praias, ele visita muito os nossos comércios. Isso pode trazer um residual de crescimento também”.
FATORES NEGATIVOS
Segundo o especialista, no entanto, também há fatores negativos que podem atrapalhar o comércio a chegar ao crescimento esperado de 8% a 15%. “O primeiro fator são os aumentos de custos, como as despesas ligadas a materiais escolares, a matrículas, ao fardamento… Isso para os casais que têm filhos”, disse.
“Essa despesa pesa muito. Para se ter uma ideia, em Fortaleza, o ensino de classe média, nessa época do ano, chega a ter um custo para os pais de R$ 5 mil a R$ 8 mil por filho. Então esse é um fator negativo que pode realmente impedir que esse consumo aumente”.
Outro fator diz respeito ao rotativo de crédito. A partir desta última terça-feira (2), os juros da dívida do rotativo do cartão de crédito e da fatura parcelada passaram a ser limitados a 100% da dívida. A decisão foi instituída pela Lei do Programa Desenrola. “Com a nova legislação, pode ser que as operadoras de cartão limitem os próprios limites do seu cliente, os reduzindo, ou então possam exigir que o parcelado não supere a duas ou três parcelas. Esse é um limite que pode fazer com que o consumo diminua”, pontuou Christian. Outras causas apontadas como negativas, como as vendas de produtos que vêm de outros países, de plataformas como Shopee e Shein; e a informalidade, onde não há um “regulamento” cumprido pelo lojista, também podem atrapalhar que o comércio alcance a expectativa de crescimento.
