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Meu papel é organizar o planejamento do que seria ideal para o equipamento funcionar em toda as suas competências

Helena Barbosa, nova superintendente do Dragão do Mar, pretende reorganizar a casa, de 30 mil m², com repaginada completa
Foto: Beatriz Boblitz/Prefeitura de Fortaleza

Com o grande desafio de recuperar, revitalizar e trazer novas cores e vida a um dos locais mais turísticos, culturais e artísticos do Ceará, o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (CDMAC), Helena Barbosa, nova superintendente do espaço, pretende reorganizar a casa com 30 mil metros quadrados e dona da ponte vermelha mais famosa do país.

Com carreira que soma 10 anos em gestão pública e 15 anos na cena artística, Helena já foi coordenadora dos Pontos de Cultura na Secult Ceará (2013), gerente de Ação Cultural no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (2017), Diretora de Formação e Criação no Instituto Ecoa (2019), assessora do Gabinete da Secult Ceará (2021) e gestora executiva no Centro Cultural Porto Dragão, equipamento da Secult Ceará, gerido em parceria com o Instituto Dragão do Mar (IDM). A curto prazo, a gestora pretende iniciar, ainda em abril, um estudo de território com uma equipe multidisciplinar para diagnosticar o que precisa ser reformulado no entorno do equipamento, ao mesmo tempo que também pretende gerir as primeiras pinturas do Dragão do Mar assim que acabar a quadra chuvosa de 2023. Os detalhes desses e de outros assuntos você confere na diálogos desta semana. Boa leitura!

1. O Dragão do Mar é um espaço cultural e turístico aqui da Capital com uma história muito bonita e desafiadora quando se trata de manter a cultura viva no estado do Ceará. Quais os projetos que serão mantidos para os próximos anos, com uma repaginada e quais os que virão de forma inédita? Comente.

Nesse primeiro momento, nós estamos fazendo um levantamento do que já existe estruturado enquanto programa e ações e de como tudo isso pode ser atualizado. A equipe que eu tenho comigo tem 24 anos de casa, o mesmo tempo do equipamento. Por meio de um diagnóstico, nós estamos mapeando quais programas deram certo e quais são as nossas fragilidades. Os programas de ação cultural já são bem estruturados, mas como a gente pode potencializá-los? Quais as atualizações que devemos fazer? Nós precisamos incluir mais linguagens, por exemplo. Nós vamos fazer isso de forma gradativa. Houve uma maior pressão para se incluir mais perfomance e música, por exemplo. De toda forma, nós temos consciência de que temos que discutir com os representantes dessas linguagens. Eu não quero lançar mais nenhum edital sem anter abrir um espaço de discussão com esses representantes. Depois que eu conversar com o corpo político organizado dessas linguagens, deixo uma consulta pública para a cidade. A partir disso, nós validamos o principal programa de ocupação do Dragão do Mar, que é o Cena Ocupa, por exemplo.

Todos os outros programas chegam por meio de pautas, são demandas mais espontâneas. Além disso, temos programas de ocupações dos lugares externos do Dragão. Todo esse dianóstico de programas me obriga a ter uma reflexão sobre, e para isso eu contratei uma consultoria para pensar os programas, a Ellicia Maria, que está junto com a minha equipe de programação, avaliando que outros programas de referência que têm nacionalmente e como a gente pode tornar mais forte, do ponto de vista de conceito e identidade, os programas mais “soltos” do Dragão do Mar. Um terceiro ponto é discutir como vamos fazer nossas programações de aniversário, que anteriormente era o Maloca.

2. A porcentagem do orçamento do Estado pra cultura gira em torno de quantos por cento atualmente? E em cima desse número, teve mudanças no que diz respeito ao Dragão do Mar nessa nova gestão do Governo Elmano? É possível a gente elencar as prioridades se tratando do espaço?

É uma demanda, primeiramente, para a Secretaria de Cultura do Estado do Ceará. O que nós temos é um planejamento estratégico de quanto custa manter o equipamento vivo, do ponto de vista da execução. A Organização Social (OS) pauta a Secretaria de Cultura, que pauta o Governo do Estado. É assim que funciona. É a disputa política que vai me dizer quanto é o orçamento para o Dragão do Mar. Meu papel enquanto gestora é organizar o planejamento do que seria ideal para o equipamento funcionar em toda as suas competências com muito sucesso. O Dragão do Mar, atualmente, tem um valor que é muito demandado por estrutura: são 30 mil metros quadrados que não se tem uma constância de investimento em manutenção. Há um atraso de investimento. Diferente dos outros equipamentos, o Dragão do Mar não é um só, é um complexo de equipamentos. Nós temos dois museus, duas salas de cinema, um teatro, um planetário, dois anfiteatros, uma praça verde. Temos que nos preocupar com cada grama que cresce, com o pombo que está sujando a minha parede. Quando vamos fazer uma pintura não gastamos menos que R$ 12 mil.

Para além disso, atualmente temos que pensar sobre a política de território porque, com o avanço das demandas sociais em função ainda da pandemia da covid-19, temos questões que fugiram do escopo. Nós não podemos negar que pessoas em situação de rua estão aqui. Para fazer o aniversário do equipamento, por exemplo, nós temos que primeiro cuidar dessa população em situação de rua e nós não vamos fazer isso por meio de uma política de higienização. Nós vamos fazer de outra forma com toda a sensbilidade que é como essas pessoas precisam ser tratadas. Para mim, de curto prazo é cuidar do entorno do Dragão do Mar e isso envolve muitas camadas: secretaria de obras do Governo do Estado, ambulante, empresário de casa de show, agências do outro lado da rua até o poste que não tem luz. Todas as políticas atravessam minha ação cultural. Do jeito que está a situação, ninguém vai querer associar sua marca a isso. Por isso, fizemos o diagnóstico e vamos trabalhar o curto prazo de imediato, que é o nosso plano de cuidado para o Dragão do Mar.

3. Como vai funcionar esse projeto de escuta com a população em situação de rua do entorno do Dragão? Existe um acordo com a Prefeitura?

Estamos há seis meses com a equipe da vice-governadoria, conduzida pela Carla Daescossia, com profissionais da assistência social e educadores para a gente elaborar uma matriz de problemas do entorno do Dragão do Mar. Vamos trabalhar a parte da segurança, urbanismo, assistência social. Isso representa desde o lixo que existe na lateral do Dragão, atravessando a população em situação de rua que dorme debaixo do teto do equipamento, o cachorro que vive aos arredores mordendo todo mundo. Todas essas pautas são diárias nas nossas resoluções. Algumas ações vamos avançar e outras nem tanto. A partir deste mês, inclusive, entra uma assistente social, um educador social e uma coordenação de território. Essa tríade vai começar a se articular e a monitorar as entregas de outras pastas, articulando com a equipe da Primeira Infância, por exemplo. Eu, como superintendente, vou ter várias reuniões para abrir o caminho politicamente. Depois disso, eu demando para a minha equipe técnica, que vamos divulgar ainda quem são todas as pessoas da equipe a partir do novo contrato de gestão. A partir disso, quando resolvermos pelo menos o básico, vamos discutir como a gente constroi outras conexões. A exemplo, temos uma agência de publicidade que tem sede perto do Dragão, que quer unir forças com o nosso equipamento e de seu entorno. Para além desse, como eu construo uma conexão com a casa de show Gandaia ou com o Chopp do Bixiga. Nós temos que ter um programa que nos integre mensalmente. E é justamente a equipe de território que falei anteriormente é que vai cuidar disso diariamente.

4. Existe algum plano de parcerias público-privada para manter o Dragão do Mar nesses próximos 4 anos?

Quando conseguirmos entender melhor cada ação do Dragão do Mar, vamos conseguir também quais os parceiros que podemos ter para fortalecê-lo. Um dos parceiros pode ser a própria Seduc a partir de uma colaboração para recebermos visitas ao Planetário do Dragão. Eu, enquanto superintendente, tenho o desejo de fazer com que marcas adotem espaços do Dragão do Mar. Eu tenho multigalerias, será que o Santander não se interessaria? É super possível, mas isso não pode ultrapassar nossa urgência de cuidar do entorno. Eu acho que, enquanto nós não tivermos as obras avançadas – que é a nossa pauta negativa, a gente não consegue mobilizar ou sensibilizar essa nossa parceria privada. O primeiro ano de nova gestão tem o papel de entender como a gente pode potencializar as políticas de arrecadação porque são elas que vão conseguir manter o espaço de uma forma decente. A partir daí eu posso começar a ir para a iniciativa privada. Quando você pensa o imaginário cultural da Cidade, em qualquer lugar do Brasil, você vê a ponte vermelha. Isso para mim é muito precioso.

5. Existe alguma prévia de data para iniciar as obras de estrutura física do Dragão do Mar?

Pós-chuva. Nós já iniciamos as pinturas da área interna, mas da área externa temos que esperar parar de chover, senão é R$ 15 mil a R$ 30 mil jogado fora. Mas não é só pintar, temos que criar um fluxo de manutenção do equipamento. Porque é muito fácil de acontecer de sujar ou de desbotar se não houver manutenção. No Planetário, por exemplo, se eu não limpar a cúpula, em dois meses, ela vai estar imunda novamente. É um ciclo de manutenção e não dá para ser de outra forma porque o Dragão do Mar é imenso e, se não for assim, eu vou ter que escolher entre pintar toda hora o Dragão ou pagar cachê de artista.

6. Existe algum projeto que pense em integrar os centros culturais recém-inaugurados com o Dragão? Comente.

A proposta da Secult que existe é o fortalecimento da rede de equipamentos. São duas OS que estão trabalhando: o Instituto Mirante, responsável pelo Museu da Imagem e do Som (MIS), Estação das Artes e Pinacoteca, e o Instituto Dragão do Mar (IDM), que está a frente do CDMAC, Porto Dragão, Bece, Vila da Música, Cineteatro São Luiz, Casa Antônio Conselheiro e Instituto Sérvulo Esmeraldo. A ideia, de fato, é que esses equipamentos tenham programações integradas. Eu compartilho disso enquanto superintendente do Dragão do Mar. Um dos meus primeiros questionamentos é como eu coloco para conversar o Museu de Arte Contemporânea (MAC) com a Pinacoteca. Não faz sentido esses dois equipamentos terem qualquer tipo de distanciamento. A Pinacoteca é imensa, qualquer exposição lá vai demorar muito tempo para ficar lá, qualquer exposição é um grande investimento. Já no MAC é possível ter um ciclo mais direto. Será que o MAC não tem mais vocação de ter temporadas, enquanto a Pinacoteca fica com as mais permanentes? Como é que eu posso construir circuitos de artes entre esses equipamentos? Para eu construir esses circuitos, nós temos que ter uma rede de equipamentos, e nós temos. Hoje o Ceará consegue ser muito rico nesse sentido. Vários estados não têm esse número de equipamentos.