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17 de julho de 2024

Dia Internacional da Mulher: construindo uma nova forma de (re)existência

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Neste Dia Internacional da Mulher, o OPINIÃO CE discute o ser mulher na contemporaneirdade. Pesquisadoras falam das transformações sociais

Giovana Brito
Especial para OPINIÃO CE
giovana.brito@opiniaoce.com.br

Priscila Baima
priscila.baima@opiniaoce.com.br

Foto: Natinho Rodrigues

Resistir para existir é praticamente um mantra para as mulheres de todo o Mundo. No Brasil, obviamente, não é diferente. Aqui, o “ser mulher” é um eterno gerúndio que perpassa por mudanças sociais constantes e, por que não, conceituais, filosóficas, culturais e morais. Ser mulher hoje é diferente de ser mulher 500 anos atrás? A resposta é sim quando falamos de racismo e LGBTfobia.

Além dessas ressignificações, ainda há muito a ser feito e debatido quando o assunto é patriarcado – sistema social baseado em uma cultura, estruturas e relações que favorecem os homens, em especial o homem branco, cisgênero e heterossexual. O 8 de março, Dia Internacional da Mulher, celebrado nesta terça-feira, representa não só a luta de todas as mulheres, mas também a pluralidade de ser uma: universitária, mãe, pesquisadora, professora, psicóloga, cantora, eleitora, cidadã, ser humano.

Mas nem sempre foi assim. Durante séculos, por exemplo, perdurou a imagem da mulher em condições equivalentes à de escrava, numa época em que ser livre significava, basicamente, ser homem. Por muito tempo, as funções primordiais femininas eram a reprodução, a amamentação e a criação dos filhos. Para a doutoranda em comunicação e pesquisadora sobre feminismos em redes sociais pela Universidade Federal do Ceará (UFC), Marina Solon, olhar o passado é fundamental para se compreender o que é ser livre hoje enquanto mulher.

“Tomando emprestada a fala da teórica estadunidense Ângela Davis, ‘liberdade é uma luta constante’. Precisamos a todo momento reafirmar e batalhar pelos nossos direitos adquiridos e nosso lugar no mundo. Um bom exercício a se fazer é olhar paro passado, conhecer o legado das mulheres e honrar o que já conquistamos”, ressalta.

A liberdade feminina tem sido conquistada de forma gradativa, mas no contexto atual se somam mais direitos conquistados do que em outros momentos da história. “A estrutura do patriarcado é muito falha e muito ruim para todo mundo que fica de fora dela, porque ela deixa de fora essas pessoas de ocupar o espaço público de forma mais contundente. Historicamente, as mulheres ficaram a serviço dos homens nessa estrutura toda. Para as mulheres, foi relegado o espaço privado”, acrescenta a pesquisadora.

Março é considerado o mês Nacional da História da Mulher, data significativa no Brasil e em países como Estados Unidos, Reino Unido e Austrália. O dia 8 deste mês tem sido celebrado desde 1911, mas só foi oficialmente comemorado depois do reconhecimento da Organização das Nações Unidas (ONU).

No Brasil, um pouco antes, no século XIX, as mulheres começavam a conquistar espaços, como o acesso ao ensino médio e à universidade, esta data em 1879. Apesar disso, as matrículas nas universidades ainda precisavam ser feitas pelos pais ou maridos das estudantes. Já em 1932, o sexo feminino conquistava o direito ao voto.

Marina relata que os direitos conquistados têm base na luta por ocupar espaço na sociedade. “Ser mulher antigamente, atualmente e futuramente vai ser sempre um espaço de luta. As mulheres estão neste espaço social lutando por protagonismo. A sociedade se organiza de forma que dá muito facilmente o protagonismo aos homens, coloca eles no centro de toda a vida social e nós mulheres estamos historicamente às margens. A nossa luta sempre foi para ocupar esse centro”, defende.

DADOS DE VIOLÊNCIA
Em meio ao isolamento social, o Brasil contabilizou 1.350 casos de feminicídio em 2020 — um a cada seis horas e meia, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Três a cada quatro vítimas de feminicídio tinham entre 19 e 44 anos. A maioria (61,8%) era negra.

“Estupro, feminicídio, violência doméstica e o assédio sexual são resultados de toda a estrutura patriarcal. Quando a gente estrutura uma sociedade para dar um poder praticamente ilimitado a um gênero, que é o gênero masculino, ele se entende dentro de um papel de poder e dominação. É dessa distribuição desigual de poder que vai nascer a raiz dessas violências”, explica a pesquisadora.

AVANÇOS E DESAFIOS
Para a advogada e doutoranda de políticas públicas pela Universidade Estadual do Ceará (Uece), Camila Pimenta, as mulheres conseguiram conquistar muitos espaços de protagonismo, mas ainda falta muito a ser debatido.

“No campo da política, acredito que temos que ter uma conscientização não só da população, como das próprias mulheres de que este também é um espaço nosso. Temos as políticas afirmativas, mas muitas vezes nós mesmo servimos aos homens para atingir essa cota. No mercado, é necessário que ocorra uma fiscalização maior por parte do Ministério do Trabalho nas empresas a fim de evitar salários diferenciados para o mesmo cargo na mesma empresa.”

A advogada acredita que a promoção de incentivos, editais específicos para pesquisa feminina e, acima de tudo, a conscientização da sociedade e “de todos os meios dirimam todas essas desigualdades de gênero que costumam ocorrer”, salienta.

Em se tratando de ser mulher no Brasil, sobretudo no Nordeste, o desafio parece ser ainda mais severo. “Uma cultura que é arraigada pelo machismo, acaba por normalizar crimes contra a honra, a dominância do homem sobre a mulher, cantadas, atitudes que, para essa sociedade, acabam por serem normais diante da cultura em que se inserem”, especifica.

Enquanto mulher, Camila afirma que é um desafio constante. “Apesar de termos conseguido conquistar vários direitos, ainda nos inibimos na sua utilização ou na cobrança quando os mesmos nos sãos negados. Somos multiuso, fazemos várias coisas ao mesmo tempo e às vezes não reconhecemos os nossos limites. Somos fortaleza, mas também necessitamos de cuidados. Então, ser mulher é desafiador e também é uma contínua evolução”, conclui.

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