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14 de julho de 2024

Demissões apontam para atenção à qualidade de vida

Em março deste ano, por exemplo, nacionalmente, 603.136 pessoas pediram demissão de seus empregos. No Ceará, de janeiro a março de 2022, foram 26.156 demissões voluntárias, sendo 8.797 só no terceiro mês deste ano.
African american young adult left unemployed because of company unsuccessful financial recovery plan. Depressed and upset office worker gathering personal belongings because of job dismissal.

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Priscila Baima
priscila.baima@opiniaoce.com.br

Mesmo com o número alarmante de 11,9 milhões de brasileiros desempregados no Brasil, de acordo com a última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE), as demissões voluntárias no País têm se tornado uma opção cada vez mais comum para as pessoas.

Em março deste ano, por exemplo, nacionalmente, 603.136 pessoas pediram demissão de seus empregos. No Ceará, de janeiro a março de 2022, foram 26.156 demissões voluntárias, sendo 8.797 só no terceiro mês deste ano. Os dados são do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e Previdência (MTP).

Do montante, tanto nacional quanto local, o setor de serviços é o que mais teve pedidos de demissão em março, de acordo com o Ministério: no Brasil, foram 289.324 pessoas pedindo para sair das empresas. Em seguida, o comércio, com 149.906, e Indústria com 99.228 pedidos de demissões.

No Ceará, foram 4.671 funcionários pedindo desligamento, seguido do comércio, com 2.037, e indústria com 1.416 demissões voluntárias. O OPINIÃO CE procurou o Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico no Estado do Ceará (Simec) e o Sindicato dos Comerciários de Fortaleza para falar sobre o assunto, mas não teve retorno até o fechamento desta edição. No primeiro trimestre de 2022, todavia, Fortaleza gerou 80% dos novos empregos com carteira assinada, segundo o Caged.

Das 8.925 vagas criadas nos três primeiros meses do ano no Ceará, 7.299 foram na Capital cearense. Barbalha fica em segundo com 792 empregos gerados. Eusébio, Brejo Santo e Russas completam a lista de empregos formais no estado. Já Maracanaú lidera como município que mais perdeu vagas de emprego no último trimestre, com 1.417 vagas cortadas. Paula Bruna*, consultora de vendas para salões de beleza na área de cosméticos, decidiu sair da empresa de onde trabalhava depois de anos de assédio moral e cobranças abusivas de seus chefes. A consultora optou pela categoria rescisão indireta, que ocorre quando a empresa não oferece meios para o funcionário exercer sua função com dignidade. “Os principais motivos que me fizeram sair foram a carga horária fora dos padrões (sábados, domingos e feriados), a cobrança diária com muita pressão psicológica, a vigilância monitorada (rastreamento) por meio de um tablet até nos intervalos e momentos de folga.” Mesmo na pandemia, a consultora abriu mão de um salário bom para ter saúde mental.

“Se eu continuasse, ia gastar muito mais com um psiquiatra. Hoje, se fosse para escolher trabalhar em outra empresa, priorizaria que o local tenha valores morais alinhados com o meu propósito e uma carga horária que me dê condições para cuidar da minha saúde e da minha família”, completa.

Fabíola Santos*, comunicóloga de 32 anos, também não pensou duas vezes em pedir as contas quando presenciou problemas de relacionamento entre seus colegas de trabalho. Fabíola ainda estava no período de experiência como auxiliar de marketing de uma indústria de produtos de estética automotiva.

“Nos primeiros dias, já notei um clima hostil entre minha chefe e o dono da empresa. Com 15 dias, ela pediu férias e posteriormente pediu demissão. A partir disso, tive que lidar diretamente com o dono. Na ausência da minha chefe, ele fazia comentários sobre minha capacidade de realizar o trabalho. Fez comentários em outro setor da empresa sobre mim, com relação a minha capacidade de realizar o trabalho. Solicitava demandas fora do horário de experiência. Chegava a ser grosseiro. Quando finalizou os 45 dias de experiência, eu pedi para sair.” Para Fabíola, que está empregada novamente, é fundamental que o ambiente de trabalho apresente “o mínimo de
respeito entre os funcionários, valorize o trabalho do funcionário remunerando bem, deixando claro as funções que serão exercidas, e tenha bons benefícios.”

QUALIDADE DE VIDA É PRIORIDADE

A presidente do Conselho Deliberativo da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH), Eliane Ramos, explica que a onda de demissão voluntária neste ano começou nos Estados Unidos ainda na pandemia e é denominada A Grande Renúncia. Uma pesquisa da empresa de recrutamento Robert Half, realizada em novembro do ano passado, revelou que quase metade dos profissionais entrevistados com mais de 25 anos pretendiam buscar um novo emprego em 2022. Entre esses, 37% apontaram como motivo para buscar um novo trabalho a busca de um salário melhor,19% tinham desejo de aprender algo novo e 12% tinham expectativa de melhorar a qualidade de vida.

“O que está levando centenas de milhares de trabalhadores brasileiros a abandonarem seus empregos? Mesmo diante dessa crise assustadora, eu acredito que muitas pessoas acabaram redescobrindo aspectos da vida, que às vezes estavam mais esquecidos, como a família, os amigos, os filhos, as atividades físicas e até a pausa que se tem para almoçar. Ou seja, é talvez essa conscientização por parte de algumas pessoas de que o trabalho não é a única razão da sua existência tenha causado as demissões”, define a presidente da ABRH.

Eliane acredita que essas demissões voluntárias podem ter acontecido também por algum programa das empresas, mas o número aumentou bastante. “Considero que essa necessidade de buscar um propósito maior foi adquirida principalmente na pandemia, uma vez que essa situação atípica fez com que as pessoas entendessem que não têm mais o controle do que está por vir, sobre a própria saúde e bem-estar. Daí vem o questionamento: ‘por que estou gastando todas as minhas energias numa rotina de trabalho que não atenda ao meu propósito de vida?’”, indaga a presidente.

Ainda segundo Eliane, os principais fatores para o recorde de mais de 600 mil demissões voluntárias somente no mês de março deste, não têm a ver com o salário e sim com a sensação do funcionário se sentir estagnado, sem projeção de crescimento e sem propósito. “Uma pesquisa da Boston Consulting Group, realizada antes da pandemia, diz que o que mais motiva as pessoas no trabalho é: relacionamento com os colegas, o equilíbrio entre vida pessoal e vida profissional e o bom relacionamento com o líder direto”, pontua.

Na avaliação do professor, economista e conselheiro do Conselho Regional de Economia – Ceará (Corecon-CE), Wandemberg Almeida, as demissões voluntárias já era uma tendência que se intensificou nos últimos anos e acontecem tanto no setor privado quanto no setor público a fim de reduzir os custos e renovar o quadro dos funcionários. “Boa parte desses funcionários são aposentados e, com isso, a instituição acaba criando um programa de incentivo de desligamento para eles. É uma modalidade que se caracteriza para oferecer ao funcionário um pacote de benefícios na hora de demitir”.

Segundo o professor, esse tipo de demissão, sendo aceita, diminui o número de processos para a empresa. “É importante destacar que quando o empregado aceita os
termos, ele não tem como questionar depois”, acrescenta. Em contrapartida, o economista conclui que um plano de demissão voluntária acaba sendo uma modalidade de desligamento do empregado que segue em crescimento nos últimos anos. “Para o empregado, o plano de demissão voluntária pode servir para montar um negócio ou antecipar a aposentadoria dele. Eu considero uma mudança de posicionamento para se enxergar novas possibilidades”.

Presidente do IDT-Ceará, Vladyson Viana reforça à reportagem que a pandemia trouxe novas exigências trabalhistas, principalmente para aquelas pessoas que aderiram ao homeoffice durante o isolamento social. “As demissões a pedido dos trabalhadores se devem por diversos fatores, entre eles busca por melhores empregos, melhores relações de trabalho e melhores adequações, e isso foi potencializado com a pandemia. Com a pandemia, esse processo tomou uma dimensão muito maior, atingindo um recorde no aís. As demissões voluntárias configuram-se 30% de todas as demissões no país, e em torno de 24% no estado do Ceará.”

De encontro a essa porcentagem, de acordo com o Caged, o Ceará teve um crescimento de 3.368 postos de trabalho, que representa o segundo melhor resultado do Nordeste para o período, atrás somente da Bahia (7.836). O nível de emprego formal variou positivamente (0,28%) e atingiu o total de 1,2 milhão de empregos com carteira, em março de 2022.

“Após o período de sazonalidade do mercado de trabalho, registrado no início do ano, percebemos a retomada das contratações com a geração de 8.925 postos de trabalho em 2022.” O resultado decorreu de 44.502 admissões e 41.134 desligamentos e manteve a trajetória positiva, retomada em fevereiro. Os números foram puxados principalmente pelo setor de Serviços (4.284).

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