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18 de julho de 2024

Dalton é o maior

Dalton Trevisan é o maior escritor brasileiro de ficção vivo e completa agora em junho 98 anos; a Record resolveu valorizar o premiado e discreto autor, lançando uma antologia, calhamaço capa dura, um luxo que alguns autores só ganham depois de mortos
Foto: Arquivo MS

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Dalton Trevisan é o maior escritor brasileiro de ficção vivo. Completa agora em junho 98 anos. O último livro publicado foi O beijo na nuca, em 2014. Talvez tenha escrito mais contos, não publicados para o grande público, artesanalmente produzidos e distribuídos, de conhecimento apenas de seleta confraria de literatos. Mas agora, a Record resolveu valorizar o premiado e discreto autor, lançando uma antologia, calhamaço capa dura, um luxo que alguns autores só ganham depois de mortos.

Vencedor de Jabuti, Machado de Assis e Camões, o mestre do conto contemporâneo, ganha em vida uma nova reunião de seus contos. É difícil dizer quantos livros ao certo escreveu ao longo de décadas de profícua produção literária, que se iniciou com Novelas nada exemplares (1959).

Dalton é o contista e o romancista de contos longos, tradicionais, até contos modernos, micros, em forma de frase única, de poema de poucos versos e estrofes. Domina a arte tradicional, mas também inova e como um artesão-inventor, testa novas formas, novos modos de contar. Sabe colocar numa síntese bem resumida, um universo inteiro. Faz o leitor pensar. Cala muito e é assim que fala muito.

Se ainda soubesse seu endereço, ele resolveu se mudar, ano passado, segundo notícias, porque teve sua residência invadida (é assim que Curitiba trata seu ilustre escritor?), mandaria pelos Correios a Antologia pessoal para autógrafo. Tenho A polaquinha e Querido Assassino autografados, com direito a bilhetinho escrito à mão e assinado por ele, coisa raríssima se tratando de uma figura alcunhada por Vampiro tal qual seu conhecido personagem, devido ao seu caráter reservado.

Dalton põe a classe média no espelho, com problemas de casamentos, traições, atentados contra a moral e os bons costumes de um Brasil das décadas de 60, 70 e 80. Explora o erotismo, elemento sempre presente nas relações humanas. Mas também denuncia o pivete drogado e viciado, a miséria, a violência urbana brutal em suas diversas formas. Um escritor de outra época, que permanece sempre atual e atemporal. Dalton é o maior.

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