Menu

Entre canções e lembranças, ex-alunos do Pequeno Coral do Crato celebram um legado

Reencontro homenageia Divani Cabral, revive a memória musical do grupo e marca o lançamento de livro sobre a trajetória do coral e da SCAC
Divani Cabral no palco regendo ao lado de Leninha Linard. Crédito: Henrique Maia

O reencontro de ex-alunos do Pequeno Coral do Crato, nesta sexta-feira (26), foi marcado por emoção, saudade e gratidão. Entre canções que atravessaram gerações e abraços carregados de memória, o grupo homenageou a maestrina Divani Cabral e lançou o livro que resgata, por meio de textos de seus ex-alunos, a trajetória do coral e da Sociedade de Cultura Artística do Crato (SCAC), uma das mais importantes experiências de formação cultural do interior do Ceará.

Um dos momentos mais comoventes da noite foi a chegada de Divani Cabral. Recebida com aplausos de pé por um auditório lotado, a maestrina foi envolvida por um gesto coletivo de reconhecimento por uma vida inteira dedicada à música e à arte.

A programação teve início com um concerto do pianista e ex-aluno da SCAC Dihelson Mendonça, que também apresentou um dueto com a cantora e compositora Leninha Linard, arrancando aplausos calorosos da plateia.

A homenagem seguiu com uma apresentação musical especial, construída a partir de ensaios realizados no Crato e em Fortaleza. Sob a coordenação de Leninha Linard, ex-alunos interpretaram canções emblemáticas do coral, como “O Trenzinho”, “O Circo” e “Boca de Forno”, além de músicas em outros idiomas, como “Ben”, “Edelweiss” e “O Mio Papà”, reafirmando a identidade de um coral poliglota e atento à diversidade musical.

Regente

Logo na primeira música, Divani — que completou 92 anos neste mês — levantou-se da plateia para reger o coral. Com a saúde fragilizada e já distante de muitas lembranças do cotidiano, foi diante das vozes e das canções que marcaram sua história que a memória pareceu aflorar. A música, mais uma vez, conduziu Divani de volta ao lugar onde sempre esteve.

Dihelson Mendonça em concerto que emocionou a plateia

Em seguida, ela subiu ao palco sob aplausos calorosos e voltou a exercer o papel que marcou mais de cinco décadas de sua vida, em um simbólico encontro de gerações.

“Divani estava feliz o tempo inteiro, interagia e se emocionava. Foi muito gratificante viver esse momento ao lado dela. Em nome da família, agradeço por essa bela homenagem”, afirmou Germana Cabral, sobrinha da maestrina e colaboradora ativa do projeto.

No palco, Divani e Leninha representaram um compromisso de continuidade. A jovem e talentosa cantora — agora regente — recebeu a batuta da forma mais espontânea e autêntica possível, pelas mãos da própria Divani, que repetidas vezes ressaltou a importância da regência na história do coral.

“Eu sou só gratidão. Foi lindo, emocionante. O coral esteve perfeito, atento. A plateia estava tão emocionada quanto nós. Foi algo inexplicável, resultado de muita dedicação e amor”, disse Leninha Linard, em mensagem direcionada aos coralistas.

Resgate cultural

A apresentação foi marcada por reencontros carregados de afeto e pela força da memória musical. Ex-alunos recuperaram letras, melodias e formas de cantar com naturalidade, como se o tempo não tivesse passado.

“Essa experiência foi revigorante. Voltamos como crianças e adolescentes. Parecia que estávamos lá atrás, nos apresentando com as fardinhas. Foi um resgate de almas, de épocas, de amizades, de valores — de nós mesmos”, disse Risélia Sobreira.

Entre os destaques, a voz revelação de Bernardo Brito, no solo de “Edelweiss”, em dueto com Marcela Peixoto, chamou a atenção pela afinação e sensibilidade. Outro momento especial foi o solo de “A Cigarra e a Formiga”, interpretado por mãe e filha: Cristiana Roberta, da terceira geração do coral, e Emile Batista, da geração mais recente.

“É uma felicidade intensa saber que eu e minha filha, de gerações diferentes, bebemos da mesma fonte”, afirmou Cristiana.

Ao final, Divani regeu a música de encerramento, o Hino do Crato, cantado em coro por público e ex-alunos. Já ao microfone, resumiu a noite com emoção: “Foi a coisa mais linda que eu já vi”.

O livro

Idealizado e coordenado por Diana Feitosa, o livro sobre a história do Pequeno Coral do Crato e da SCAC nasceu do desejo de preservar a memória de um espaço que foi muito além do ensino musical. Fundado em 1967, o coral tornou-se referência de convivência, acolhimento e formação humana. A obra reúne 63 colaboradores, entre depoimentos, registros históricos e textos institucionais.

Diana Feitosa, idealizadora do projeto

“Ver Divani no palco foi a coroação de tudo. Tenho a sensação de dever cumprido”, afirmou Diana, visivelmente emocionada com o resultado do projeto.

O evento ocorreu no auditório da Universidade Regional do Cariri, reunindo ex-alunos, familiares, artistas e representantes da cultura regional em uma noite dedicada à celebração da memória, da música e do afeto.