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De cantoras a musicistas: mulheres ocupam cada vez mais espaços no samba no Ceará

Num contexto predominantemente masculino, conquistar reconhecimento nas rodas de samba exige das mulheres um esforço adicional para evidenciar sua potência. Por isso, o JORNAL OPINIÃO CE abre uma série especial sobre como é a vida de algumas mulheres, de Fortaleza e do Interior, no universo do samba
Gabi Nunes. Foto: Micaela Menezes/ Especial Opinião CE

O cavaco, o pandeiro, o violão, o bandolim, o microfone, o tambor, uma porção de memórias familiares e um sorriso largo que, democraticamente, ocupam os espaços por onde passam e encantam os ouvidos de quem as ouve. Quem visita as tradicionais rodas de samba da capital cearense – e até as mais novas – provavelmente já se encantou com a voz rouca e alegre da cantora Gabi Nunes. Natural de Fortaleza, com grandes influências baianas, Gabi trouxe da família a admiração pela música desde cedo. A história de Gabi faz parte de uma série especial sobre como é a vida de algumas mulheres, de Fortaleza e do Interior, no universo do samba feita pelo OPINIÃO CE.

Num contexto predominantemente masculino, conquistar reconhecimento nas rodas de samba exige das mulheres um esforço adicional para evidenciar sua potência. Figuras emblemáticas como Dona Ivone Lara, Jovina Pérola Negra, Beth Carvalho e Elza Soares foram pioneiras em ocupar espaços de destaque no universo do samba no Brasil.

Com avô sanfoneiro ligado ao choro, Gabi desde muito cedo acompanhou os acordes dos familiares. Suas tias-avós cantavam Clara Nunes e Ivone Lara. Ainda menina, Gabi absorveu tais vivências que carrega até hoje. Agora, nas rodas de samba em Fortaleza e até em Salvador, na Bahia, quando faz roda de samba em homenagem ao Dia de Iemanjá.

“Meu tio, irmão da minha mãe, em 2010, resolveu montar um grupo de samba e ele via que eu cantava nas rodas da família, que eu era afinada. Ele me chamou para fazer parte do grupo, que era o Samba Partido Novo, antes de surgiu o partido político e eu aceitei, muito tímida”, revela.

Em 2016, Gabi se mudou para Salvador e morou lá por quatro anos, sempre conhecendo também pessoas ligadas ao samba. “Formei alguns grupos e acabei participando um pouco da cena de samba de Salvador, como até hoje tenho grandes amigos lá que fazem parte do samba”, conta.

Nos últimos anos, um número crescente de cantoras e instrumentistas tem ingressado em rodas espalhadas por todo o Brasil. Em Fortaleza, esse movimento ganha cada vez mais força e expressividade. Gabi, definitivamente, é uma das mulheres que representam essa ocupação de espaço. Todavia, o lugar de cantora no samba é algo a ser esperado. Nunes cita que seu lugar de cantora pode representar ainda um privilégio diante do machismo que outras mulheres sofrem no âmbito do samba.

Roda de Samba no Dia de Iemanjá em Salvador, Bahia. Foto: Arquivo Pessoal/ Gabi Nunes

“As cantoras não chocam tanto assim, elas não ocupam, elas não brigam tanto por espaço com outros caras, porque o Brasil é um país de cantoras. Então, quando a gente é cantora de samba, a gente vira dama, a gente vira madrinha, vira a rainha do samba viram esses títulos que as pessoas gostam de dar. Por isso, quando eu tenho oportunidade, eu falo sobre as mulheres instrumentistas, elas, sim, sofrem mais com o machismo no samba”, arremata a cantora.

CENÁRIO TEM MUDADO, MAS HÁ DE MELHORAR

Para aquela que está imersa no cenário do samba cearense há mais de quatro décadas, testemunhar mulheres ocupando esses espaços é motivo de celebração.

“O samba sempre foi predominantemente masculino; antigamente, era raro ver uma mulher tocando tanto na percussão quanto na harmonia”, recorda Marilene Sales, de 61 anos, cuja trajetória se entrelaça com as rodas de samba do Bar da Mocinha, na Praia de Iracema, onde ela se estabeleceu como uma das mais respeitadas sambistas de Fortaleza.

Para a Dama do Samba de Fortaleza, o gênero na Capital está em constante evolução. “O que nos deixa bastante feliz é a grande e merecida inclusão das mulheres sambistas. É um grande talento que nós temos e continuamos sempre nessa mistura no samba de homens x mulheres, está lindo demais, a mulherada está firme e forte!”, vibra Marilene, em entrevista ao OPINIÃO CE.

Marilene Sales em uma roda de samba. Foto: Germano Rolim

Se antigamente a mulher tinha um papel apenas como cantora, hoje em dia, há muitas instrumentistas: pandeiristas, violonistas, tocando instrumentos percussivos. Ocupando também esses espaços, apesar de ainda ser um ambiente mais masculino.

A musicista Theresa Rachel, que também é cantora e divide rodas e palcos com Gabi Nunes, salienta que é muito importante as mulheres estarem em outras categorias do samba. “Tem que estar em outras áreas. Aprender sobre arranjo, compor e estar nesse lugar também. Eu toco há 16 anos e canto há menos tempo”.

Theresa Rachel. Foto: Divulgação

Quando Theresa começou a frequentar mais profissionalmente o cenário musical do samba em Fortaleza, o machismo acontecia nas sutilezas. Segundo relatou, ela chegava para dar uma canja de violão, por exemplo, e era como “se eu precisasse provar que eu tocava sempre. Se for outro homem, ele não precisa provar como uma mulher precisa”, compara.  Theresa, atualmente, tem uma agenda de shows de quinta a domingo, sendo shows privados ou públicos. Em breve, deve gravar seu trabalho autoral.