Tradição milenar, os ladrilhos hidráulicos remontam ao século IV, no auge do Império Bizantino, onde enfeitavam pisos e paredes de palácios e castelos. No Brasil, as primeiras fábricas surgiram no final do século XIX, em São Paulo, a partir de colônias italianas, que ampliaram a produção para o restante do País. A popularização da cerâmica, na década de 1980, despencou o número de oficinas que se tornaram cada vez mais raras. Em Barbalha, no Cariri cearense, pelas mãos de um senhor de 81 anos e seu filho, essa arte se mantém viva e se tornou referência para outras regiões do Nordeste.
O ladrilho hidráulico é um tipo de revestimento artesanal feito, hoje, à base de cimento, cuja utilização era comum em pisos e paredes de praças e casas. Diferentemente da telha e do tijolo que são levados ao forno, a peça, depois de preparada, descansa por 24 horas e é submersa na água — daí o “hidráulico” — por mais oito horas, até ficar armazenada por mais alguns dias na sombra. Um trabalho manual, cansativo.
Nascido em 17 de agosto de 1942, no sítio Venha Ver, zona rural de Barbalha, Jaime Arnaldo Rodrigues aprendeu o ofício aos 17 anos quando começou a trabalhar como servente, numa pequena fábrica de mosaicos, fundada em 1954. Com seis meses ali, foi entendendo o ofício e passou para a prensa, de onde não saiu mais. “De lá pra cá, meu rojão sempre foi mosaico”.
MEMÓRIAS EM LADRILHOS
Os ladrilhos viviam seu auge, enfeitando praças do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco. “Até da Bahia, vinha encomenda. Era muito serviço”, lembra Jaime. A crescente procura se dava por uma nova tendência: a utilização de cores, que criavam imagens nos chãos e paredes. O sucesso fez o empresário João Gonçalves, patrão de Jaime, abrir uma nova filial em Brejo Santo, em 1963, que atenderia municípios vizinhos e clientes da Paraíba e de Pernambuco. “Fui pra lá com mais oito rapazes e cinco prensas”, recorda Jaime.
Com custo menor, a cerâmica quebrou as vendas de mosaicos e isso obrigou João Gonçalves a largar o cimento, fechar a fábrica e trabalhar como vendedor, em 1979. Com isso, Jaime voltou para a roça, trabalho que ocupou quando ainda era menino. Três anos depois, os clientes voltaram a procurar o artesão para recuperar seus pisos, feitos de ladrilhos há mais de 40 anos.
Uma mulher, de Sousa, na Paraíba, chegou a implorar e chorar pedindo que consertasse seu piso. A comoção trouxe Jaime de volta ao cimento. Apaixonado pelo ofício, decidiu comprar um terreno, as prensas e os moldes do seu antigo patrão. Assim, montou sua própria fábrica. O trabalho voltou a todo vapor, ou melhor, à toda prensagem. Seus ladrilhos hidráulicos se espalharam pelo país.

PERPETUAÇÃO
Pai de 11 filhos, foi com os ladrilhos que Jaime conseguiu manter toda a família. Apesar da prole significativa, apenas Cícero José Rodrigues, 53, conhecido com Vando, herdou o gosto pela produção do piso artesanal. É ele que mantém ativas as encomendas. Antes de seguir neste trabalho, fazia serviços como pintor e servente de pedreiro, mas se encantou pelo mosaico. Efetivamente, ele começou a trabalhar na oficina há quase 30 anos. “Hoje, eu faço todas as peças. A tinta, o mosaico, o material”, descreve.
Levar para a frente não é uma tarefa fácil, pois a construção de um ladrilho é como uma espécie de ritual ou receita de bolo. E cada detalhe é importante. “Além de fabricar os desenhos, tem a mistura de materiais. Cada uma dessas tintas pega quatro ou cinco tipos de material. Se errar uma colher de sopa de um traço para o outro, pode atrapalhar, porque fica uma mais do que outra”, explica Jaime.
Com mais de 60 anos de experiência, o artesão já tem uma dosagem certa e explica: “Se uma pessoa me pedir um mosaico vermelho e botar demais (pigmento) vai passar da cor. Se eu botar de menos vai diminuir. Eu não posso tirar nada de um para o outro”, detalha. Como referência, ele indica três ou quatro colheres de cimento branco para uma de pigmento. Os ladrilhos ainda levam pó de pedra, areia grossa, areia fina e cimento comum. “Na hora que começa a secar, a gente vê a diferença. A cor já diz”, completa Vando. O filho herdou a receita de Jaime para a produção de tintas ou da “pedra”, como também chama o antigo artesão, que pelo avançar da idade se mantém longe do cimento para preservar sua saúde. Seu trabalho hoje é orientar. Atualmente, a depender do modelo, a Fábrica de Mosaicos de Barbalha consegue fabricar até 150 peças por dia. As mais complexas, apenas quatro, porque possuem muitos detalhes.
“Eu não posso deixar isso acabar. Sempre vai ter uma pessoa para levar o negócio”, finaliza Vando.
