O paredão vermelho com a inscrição “Exu Te Ama” chama atenção de quem passa pelo Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. A intervenção faz parte da exposição gratuita “Festa, Baia, Gira, Cura”, de Jean dos Anjos, com curadoria de Marília Oliveira e Rafael Escócio. Ação do Museu da Cultura Cearense (MCC), um dos equipamentos expositivos do Dragão, ocupa duas salas e conta com painéis instalados em diversos espaços do centro cultural. O que está fora das salas de exposição “intrigou” evangélicos, segundo a deputada Dra. Silvana (PL).
Conforme a parlamentar, seu gabinete recebeu uma série de reclamações relativas a imagens e frases dos painéis expostos na estrutura do centro cultural.
“Meu requerimento é para que seja retirada tanto a imagem como o que está escrito ali no Centro Dragão do Mar sobre Exu. Para o evangélico, isso é uma agressão. Não só para evangélico, para o católico, para o cristão. É uma agressão ao estado laico. Então, o governo está insistindo no ativismo religioso. Isso está errado”, revelou a parlamentar.
O requerimento foi apresentado na Assembleia Legislativa, com pedido de urgência, mas ainda não foi pautado. Ao OPINIÃO CE, a deputada questionou os locais onde os painéis foram instalados. “Pedi à minha assessora para ir e ela disse se tratar de uma suposta exposição que não bate. Porque quando é uma exposição, não se utiliza os muros da edificação. Foram pintados os muros do Dragão do Mar. Quando você faz uma exposição, você leva um banner, um cartaz, uma faixa, objetos, mas ali foi pintada a parede. Isso foi conferido”, afirmou a parlamentar à reportagem.
“Não estou falando contra a exposição em si (…) Não é para utilizar a parede do equipamento público”, pontuou Dra. Silvana.
PAREDES
A estrutura do Dragão do Mar já recebeu outras intervenções antes do painel “Exu Te Ama”. A própria parede onde se encontra o painel já foi usada antes, como espaço expositivo, com aplicação de tinta sobre a estrutura física do centro cultural. Até a montagem da exposição de Jean dos Anjos, um grafite de grande escala feito pelo festival de arte urbana Concreto ocupava o espaço.
É comum a instalação de painéis no CDMAC ou mesmo intervenções estruturais, como a retirada de uma parede. Alterações do gênero são temporárias e passam por consultas internas. O “Exu Te Ama” de Jean dos Anjos deve ficar ali até o fim da exposição, no começo de janeiro de 2024. O caso não chegou oficialmente ao Dragão do Mar.
PLURALIDADE
Jean dos Anjos é apresentado na divulgação da exposição como antropólogo, fotógrafo e macumbeiro. É um dos principais e mais experientes estudiosos dos cultos de matriz africana no Ceará.
“Quando Brasil foi invadido pelos europeus, que trouxeram para cá o cristianismo, os primeiros a serem exterminados foram os indígenas. Posteriormente, a primeira coisa que se fazia com uma pessoa do continente africano, quando chegava no Brasil, era tirar o seu nome e sua identidade. Nós temos um cenário na formação da cultura brasileira de extrema violência e tudo que se tem hoje é fruto de muita resistência, então esses povos resistiram e resistem até hoje”, argumenta Jean.
Um exemplo disso, segundo o pesquisador, foi o assassinato de Mãe Bernadete na Bahia, recentemente, o que representa ainda o ódio que existe contra a população negra e indígena e que, até hoje, lutam por terra.
Em relação às frases escritas nos muros do Dragão do Mar, Jean é categórico: “Exu é uma divindade afro e também é brasileira, que significa caminho e diálogo. Não tem a ver com o cristianismo. O fundamentalismo cristão ataca Exu, mas não são todos os cristãos. É o que a gente chama hoje de racismo religioso, entranhado no racismo estrutural. É um problema da sociedade brasileira”.
Para o antropólogo, as religiões podem conviver no mundo de uma maneira plural. Ele lembra até pouco tempo atrás, terreiro de umbanda e candomblé eram invadidos tanto pela igreja quanto pelo Estado, e os pais e mães de santo eram levados para a delegacia e até torturados. Só a partir da Constituição de 1988, começou a ter maior liberdade de crença e credos no país.

ESPAÇOS
“Candomblé e Umbanda fazem parte da cultura do Ceará. Quando pensamos em espaços públicos, nós temos imagens de Nossa Senhora em quase todas as praças de Fortaleza. E isso é normatizado pela sociedade porque é de uma religião que ainda se diz dominante. (…) Essa exposição vem, exatamente, também para ocupar esses espaços, para dizer: ‘Nós também existimos e temos o nosso lugar’”, defende o pesquisador.
Questionada sobre as imagens cristãs presentes em prédios públicos, como praças e a própria Assembleia Legislativa, a deputada Dra. Silvana disse não se sentir incomodada, porque o cristianismo representa “a maioria”.
“Eu, em respeito à maioria cristã, não me sinto incomodada, não faria e nem apoiaria um projeto pedindo que fossem retiradas todas as imagens. Nós precisamos respeitar um Estado que é cristão e é feito, sob a mesma Constituição, sob a benção do Deus cristão”, defende.
Jean, por sua vez, acredita que não só essa exposição, mas todas as manifestações culturais afrobrasileiras devem ser valorizadas e incluídas em programações públicas da cidade como forma de resistência à hegemonia cultural presente até hoje. “Nós também temos o nosso espaço. A arte vem como uma provocação porque nós estamos buscando o nosso lugar no mundo, enquanto seres da arte e da cultura”, explica. “Como o Estado é laico, nós também temos o direito de ficar. Da mesma forma que há culto e missas da Alece e CMfor, nós também vamos levar os nossos tambores. Ou fica todo mundo, ou não fica ninguém”, conclui o pesquisador.
