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13 de julho de 2024

Como somos feios sem a máscara

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Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Pessoalmente, gosto muito de observar o rosto de gente. Com a volta das aulas presenciais, percebi que reconhecia os alunos pelo timbre da voz, mas não as suas faces. Observei, também, o rosto de amigos e de transeuntes com e sem a máscara.

Conversando sobre a pandemia – esse vai e vem da covid-19, a morte de amigos e de conhecidos e do uso costumeiro da máscara pela população chinesa e japonesa, fiz o seguinte comentário: “Como somos feios sem a máscara”? E eles reagiram: “Isso é sério!” Parece que a nossa identificação de “belo” e “feio” não está abaixo dos olhos, pois ao revelarmos o nariz, a boca e o queixo encontramos uma outra pessoa.

O gênio, Leonardo da Vinci, tentou encontrar o ideal clássico de beleza, de equilíbrio, harmonia das formas e de perfeição das proporções no seu homem vitruviano. Mas o que entende, de fato, com os dois termos, “belo” e “feio”? Sabe-se que eles mudaram de sentido até mesmo no curso da história ocidental e são relativos aos vários períodos históricos.

A respeito, Xenófanes de Colofão escreveu: “Se mãos tivessem os bois, os cavalos e os leões e pudessem, como os homens, desenhar e criar obras com estas mãos, semelhantes ao cavalo, os cavalos desenhariam as formas dos deuses, e os bois semelhantes ao boi, e lhes fariam corpos tais quais eles os têm.”

Independente de se está ou não com máscara, há critérios estéticos, mas também critérios políticos e sociais quando se estuda o “belo” e o “feio” – a sociedade capitalista e o seu desejo de beleza e de imortalidade que o diga. Karl Marx, em seus Manuscritos econômico-filosóficos de 1844 recorda como a posse do dinheiro pode suprir a feiura, segundo Umberto Eco, em seu livro, História da Feiura.

“O dinheiro, na medida em que possui a propriedade de comprar tudo, de apropriar-se de todos os objetos, em sentido eminente […]. Sou feio, mas posso comprar a mais bela entre as mulheres. Logo, não sou feio, na medida em que o efeito da feiura, seu poder desencorajador, é anulado pelo dinheiro. Sou, como indivíduo, manco, mas o dinheiro me dá vinte e quatro pernas: donde, não sou manco… Meu dinheiro não transforma todas as minhas deficiências em seu contrário”? Pois é: “podemos” até modificar a tal “beleza” exterior, mas e a interior? E que vírus feio é esse!

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