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Zeitgeist – o Espírito do Tempo: cinema, ficção e realidade 

O cinema entrou na minha vida por intermédio do meu saudoso pai. No meu aniversário de 10 anos,...

O cinema entrou na minha vida por intermédio do meu saudoso pai. No meu aniversário de 10 anos, ele deu-me três presentes: um Prestobarba de prata, um relógio Mondaine e levou-me ao cinema pela primeira vez para assistir ao filme: “As Sandálias do Pescador”, um drama épico, baseado no romance de Morris West. Anthony Quinn interpretava Kiril Lakota, um arcebispo ucraniano liberto da Sibéria, eleito Papa no Vaticano em meio a uma crise da Guerra Fria. No filme, além de Anthony Quinn, ele apresentou-me os atores: David Janssen, Vittorio De Sica, Laurence Olivier. Nomes que nunca esqueci e que sempre os acompanhei em seus trabalhos cinematográficos. Claro que eu não entendi as abordagens políticas, envolvendo fé, diplomacia e Guerra Fria. Mas, aquela grande tela, aquele som e as canções deixaram-me em êxtase. Acho que ele escolheu o filme para a sua satisfação pessoal, mas para mim foi um encantamento ele ter me apresentado uma sala de cinema. Muito tempo depois, compreendi a complexidade da arte, especialmente o cinema e sua forma de narrar, interpretar irrealidades, histórias reais e de dar vida utilizando-se da ficção para falar de memórias, de histórias de vida, políticas e sociais reais, trazendo o passado de volta ao presente. Em verdade, os artistas, pintores, compositores, cantores, diretores e atores com seus quadros, suas letras, canções e filmes, revelam o “Zeitgeist – o Espírito do Tempo”. Na semana, ouvi de um colega o seguinte comentário: “Eu não gostei do filme, ‘Os Pecadores’, porque é um musical e tem vampiro. Eu nem entendi. E de uma colega, esse filme do Leonardo DiCaprio, “Uma Batalha Após a Outra”, é filme de comunista com armas. Eu não gostei”, e, no entreouvido na mesa de um bar, ouvi essa: “Eu estava era torcendo contra esse ‘Agente Secreto’, um filme feito por comunista que só fala mal dos militares”. Quanto a torcer contra o nosso filme, é melhor nem comentar. É, parece que eles não entendem o poder transgressor e revolucionário da arte e nem tão pouco do Zeitgeist. E, por falar em espírito do tempo, ele foi revelado em alguns filmes no Oscar deste ano. Os grandes filmes vencedores usaram da ficção para falar e denunciar temas atuais. Na película “Uma Batalha Após a Outra”, que traz protestos amados de um grupo contra o governo, não é mera coincidência com a realidade vivida nos Estados Unidos e sua política de imigração. No “Os Pecadores”, revela uma narrativa bem elaborada, dirigida e interpretada, abordando a política atual do país que usa a música e vampiros para denunciar o racismo. No filme “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet”, trata-se da história de Hamnet, o único filho homem de William Shakespeare que morreu aos 11 anos. Acredita-se que a trágica morte do filho tenha influenciado profundamente a obra de Shakespeare, especialmente na tragédia Hamlet. A atriz, cantora e compositora irlandesa, Jessie Buckley que interpretou Agnes, a esposa de Shakespeare, com sua performance brilhante, merecidamente levou a estatueta de melhor atriz. Pessoalmente, no nosso filme, “O Agente Secreto”, eu achei a interpretação do Wagner Moura muito contida. Achei meio sem propósito a exposição de cenas de sexo em uma praça onde acontece também uma excessiva aparição da tal “Perna Cabeluda”, que trata da famosa lenda urbana de Recife, surgida em 1975, durante o Regime Civil-Militar. Em 1976, o filme: “Todos os Homens do Presidente”, tratou de uma história real, quando dois repórteres rivais que trabalhavam para o jornal Washington Post descobriram uma conexão entre os ladrões e um funcionário da Casa Branca sobre o roubo em 1972 da Sede do Partido Democrático no condomínio Watergate. Escândalo conhecido como Watergate que derrubou o presidente dos EUA, Richard Nixon. E por falar em escândalo, será que o maior escândalo financeiro do Brasil, o do Banco Master e a delação de seu dono, Daniel Vorcaro que provavelmente irá envolver muita gente poderosa: governadores, deputados federais, senadores, juízes do STF, presidentes do Banco Central, pastor de igreja de condomínio de ricos e etc tal, daria um bom roteiro e um bom filme, não de ficção, mas dá realidade da tal podre elite brasileira.