O ano de 1989 não ficou na história apenas pela primeira eleição presidencial pós-regime civil-militar, mas também por ter sido a eleição direta com maior número de candidatos na história, e que elegeu um presidente civil. Naquele ano, a transgressão da escola de samba Beija-Flor em seu desfile mais icônico, idealizado pelo lendário carnavalesco Joãozinho Trinta, irritou setores mais ortodoxos da Igreja Católica e conservadores. Eu, em pleno vigor dos meus vinte e seis anos, cheguei de manhã da noitada carnavalesca do velho e bom Aracati. Na sala, lá estava a televisão solitariamente ligada. Sozinho, parei, sentei e pensei: Será que ainda estou tomado pelo álcool? Não acreditava no que via: aquele desfile de mendigos, de negros, mulatos pobres, desfilando em plena Sapucaí. No dizer de Caetano Veloso, “quem não seguiu o mendigo Joãozinho Beija-Flor”? Aquela idealização de um Cristo como mendigo em frangalhos, como uma crítica social à pobreza e à exclusão, pós-regime civil-militar, fazendo uma alusão direta ao Cristo Redentor, símbolo religioso da cidade, não agradou à igreja que reagiu. A arquidiocese entrou com ação judicial alegando desrespeito à imagem sagrada. Resultado: A Justiça proibiu a exibição da imagem. O Cristo como mendigo, que fazia parte da alegoria do samba-enredo “Ratos e Urubus, Larguem minha Fantasia”, fez parte do desfile na Sapucaí, mas coberto com um plástico preto. Naquela hora, ao ver tudo aquilo, peguei papel e caneta e escrevi a letra, cantarolando a música do samba, “Zé Pinto”: “Zé Pinto desceu a ladeira/Com a cuíca de lado/Com a morena na frente/Riu foi da gringada/Dançou porta-bandeira/Entre os paralelepípedos que tinha direito/Zé Pinto sentiu que hoje era o dia/Que a lágrima ia correr na alegria/E subindo a ladeira/Entendeu também que podia/Desfilar na História do Brasil”, e por aí vai. Homenagem ao nosso artista, o escultor autodidata cearense, célebre por transformar sucata, ferro e madeira em arte, apelidado de “Poeta da Sucata”. O samba, “Zé Pinto”, gravei no primeiro disco, “Ambiguidades”, em 1993. Em 2026, trinta e sete anos depois, a Viradouro, a escola campeã, com o samba enredo “Pra cima, Ciça!”, homenageou em vida outro artista popular, o mestre Ciçã, sambista, comandante da bateria, e tudo de bom, que fora dos holofotes dedica a vida à arte e à criação. A Acadêmicos de Niterói também homenageou a trajetória de outro homem que tem origem nas entranhas do povo, Luiz Inácio, o Lula. Desde a Idade Média, os festejos de carnaval têm um caráter público, cômico-popular de transgressão e reação aos poderes do Estado e da Igreja. A escola Acadêmicos de Niterói, ao criticar o modelo de família tradicional brasileira, também está criticando esses poderes. Na Idade Média, no período Renascentista e, ainda, hoje, o carnaval mantém essas transgressões – críticas sociais, políticas e culturais. Em seu livro, “A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento”, Mikhail Bakhtin, afirma que no carnaval: “O local era o centro da cidade, onde o povo cantava, dançava nas ruas, usando máscaras, quando os homens vestiam-se de mulher e as mulheres, de homens. Cardeais, monges, magistrados representavam novos papéis dentro da multidão”. Diferentemente das festas oficiais que apresentavam distinções sociais, diz Bakhtin, “no carnaval, todos eram iguais e o contato era livre entre as pessoas. O Carnaval era uma espécie de libertação temporária das hierarquias sociais, dos privilégios, tabus e do que era tido como verdade dominante”. E por falar em verdade dominante, os setores da Igreja Católica, Evangélicos, a turma da TFP, que defende a Tradição, a Família e a Propriedade e conservadores, de modo geral, têm que compreender que o carnaval como festa popular, é indestrutível. Os conservadores buscam a manutenção da cultura: os costumes e a tradição, ao passo que o carnaval como festa e arte popular é transgressor, questiona ou mesmo nega a tradição e os costumes.
O Carnaval é a maior caricatura, na folia o povo esquece a amargura: cultura e transgressão
O ano de 1989 não ficou na história apenas pela primeira eleição presidencial pós-regime civil-militar, mas também por...
