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Uma pequena transgressão

“Esses momentos de fuga não devem ser desprezados. Eles vêm muito raramente.”

(Virginia Woolf)

Para quem se habituou a dar satisfação dos caminhos que percorre, fugir à rotina e desligar o celular parece uma transgressão. No entanto, é uma pequena expressão de liberdade. Por isso, em um domingo, decidi mudar o trajeto do supermercado de sempre e sair para me dar um prazer desejado há alguns meses.

Coloquei a bolsa retornável do supermercado dentro de uma bolsa maior e avisei que iria fazer as compras da semana. Em vez de ir ao mercantil, peguei um carro por aplicativo para o centro da cidade. Era agora que eu ia conhecer o novo Café Comércio, que funciona em um prédio com mais de 150 anos, a antiga sede da Associação Comercial do Ceará.

Não me importei em estar sozinha, nem com o pouco movimento do Centro da cidade em um domingo. A vontade de me dar esse presente foi maior, assim como a sensação de liberdade de comer o que eu quisesse e ler meu livro da vez sem interrupções. Era o presente merecido pelo dinheiro do meu trabalho.

Ao entrar no prédio restaurado, me chamaram a atenção os ladrilhos do chão, bem parecidos com os que estão presentes em tantos prédios históricos da cidade. Os lustres, os vitrais, as bandeiras das portas, o ar clássico presente. Mas nada chamou mais a atenção do que uma cristaleira colonial com mais de dois metros de altura no balcão. Os vidros de cristal bisotado, a madeira escura e o monograma do antigo Palace Hotel, que também ocupou aquele prédio davam um ar parecido com o da confeitaria carioca centenária Colombo. Fortaleza agora tem um café em casarão antigo no centro… Achei muito chique.

Como faltava apenas uma hora e meia para encerrar o atendimento, escolhi um café com caramelo de três cores e uma empada de pernil. Enquanto o prato chegava, aproveitei para ler Grande Sertão, Veredas. Descobri que Riobaldo teve um caso com uma moça turca, de quem aprendeu as “primeiras bandalheiras”. Viajo para o início do século nesse prédio em que estou e penso: ali, pertinho, na rua Senador Pompeu, toda uma comunidade libanesa de comerciantes morou e colocou seus negócios. Será se alguém terá pisado nesse chão para fazer alguma “bandalheira” no meio da tarde? Pelo menos no tempo da Associação Comercial, devem ter pisado nesses ladrilhos para participar das reuniões. Afinal, a maioria era comerciante.

Volto à vida real para saborear minhas escolhas. Depois que termino, percebo no cardápio um pequeno presente: o sorvete de farinhada! Procurei tanto por esse sabor quando ele foi lançado no Mercado Alimenta na Estação das Artes! Ele foi feito em uma comunidade quilombola cearense e ganhou alguns prêmios. Pois agora está no cardápio! Acompanha uma queijadinha quentinha, melaço de cana e uma farofa de farinha d’água e cocada. Uma delícia suprema que valeu todo o passeio.

Peço a conta, vou olhar o prédio com mais cuidado e vejo alguns detalhes nas paredes. Romeu Duarte, quem deu a consultoria para o restauro, deixou alguns pequenos pedaços descascados para que as pessoas pudessem ver os desenhos e as cores das paredes originais. Os crisântemos do teto também permaneceram.

Ao lado, um pequeno memorial mostra a história do casarão com uma linha do tempo, revelando que já foi residência do comerciante Dario Telles de Menezes e hotel de luxo com dois nomes diferentes.

As 17 horas chegam e peço meu carro por aplicativo para voltar à realidade de sempre, de antes dessa pequena fuga. Chego no mercantil às 17h30, compro o que falta, e não me atraso para o trabalho da noite. Ninguém me pergunta por onde eu estive, mas eu sabia muito bem aonde andei. Um sorriso no canto da boca me dá uma sensação de gaiatice nessa pequena transgressão. Vou repetir em breve.