Quem diria que, depois de cinco anos da pandemia, Fortaleza estaria com vários locais em que é possível viajar no tempo para a Belle Epoque? Sigo feliz com essa novidade e bastante surpresa porque não faz muito tempo em que minhas crônicas só lamentavam pela derrubada e pelo fechamento de lugares importantes para o patrimônio histórico da cidade.
Apesar de ainda não ter ido em todos – ainda falta conhecer o novo Café Comércio Senac, esse do fim do século XIX, e a réplica do Café Java da Academia Cearense de Letras – acredito que só o fato de podermos adentrar esses locais e eles estarem em pleno funcionamento com delícias já é motivo para comemorar.
Nos anos 1920, tempo áureo das melindrosas, mulheres jovens que cortaram os cabelos ao estilo chanel e inventaram uma nova moda, sem espartilhos e com saias mais curtas, todos esses casarões já existiam e cumpriam função importante na capital cearense que, a essa época, era influenciada pela cultura francesa.
Começo o meu caminho pela Avenida Visconde do Rio Branco, um dos corredores que dava acesso à cidade, chamada Estrada da Messejana em outros tempos, no casarão que abriga hoje a Casa Pitéu.
Pintada em verde e laranja, a edificação conserva as paredes em tijolinhos brancos sem acabamento na parte de dentro, assim como o piso em ladrilho hidráulico e assoalho de madeira, nos salões da frente.
Era residência nos anos 1920 e foi alugado em 2022 para, inicialmente, ser um restaurante e café. Com o tempo, passou a ser locação para ensaios de moda e eventos, como aniversários e casamentos e abre eventualmente com feijoada vegana e tradicional para o público. Ali, se bebe uma deliciosa limonada santa, com limão, gengibre e capim santo. Pude visitar algumas vezes e é um dos meus lugares preferidos no Centro.
Sigo para a Aldeota, nos anos 1920 ainda chamado de Outeiro, e revejo toda conservada e com um café chiquérrimo a casinha que eu namorava quando
estava grávida do meu segundo filho. Em 2014 e 2015, a casa construída em
1919 e tombada na última sexta (27), como patrimônio histórico do município,
era um apêndice do estacionamento em frente à sede de um grande plano de
saúde, assim como era o casarão das pianistas, na Rua General Sampaio, no
Centro.
Permanentemente fechada, mas imponente, com redinhas no umbral da fachada, eu sempre brincava que aquela casa era minha e eu ia alugar, porque passou um longo tempo com a placa de locação. Ao contrário do que eu temia, não foi derrubada e agora é sede da Casa Paine, que trabalha com pães, croissants e outros artigos de confeitaria.
No início do mês de junho, fui conhecer a casinha e fiquei impressionada. Não apenas com a estrutura conservada, mas com o conforto. As paredes com os tijolinhos à mostra dão um tom aconchegante ao ambiente, contrastando com o frio do ar condicionado super potente e o requinte dos pratos.
Diferente da maioria dos cafés de Fortaleza, principalmente os recém-abertos, o atendimento é muito ágil. Fui em uma sexta, tinha fila de espera, mas mesmo assim demorei apenas 15 minutos para poder entrar e dez minutos para que o meu pedido chegasse.
Saí com vontade de voltar de dia para aproveitar aquele cenário de época, especialmente a parte exterior que conta com pés de jasmins, a flor preferida.
Ver Fortaleza com esses espaços florescendo e se tornando moda me dá esperança porque outros casarões fechados podem ser resgatados da possível demolição por empreendedores visionários que percebam o potencial desse mercado. Estou na torcida.
