Estar em livrarias e sebos sempre foi meu tipo preferido de passeio. Sozinha, sem hora pra voltar e com dinheiro no bolso é a visão do paraíso. No entanto, diferente de muita gente, eu só fui conhecer um dos sebos mais famosos de Fortaleza – o sebo do seu Geraldo – em 2019.
Daí até a atualidade, foram muitas visitas para comprar, vender e trocar livros. Fiquei muito sentida com a partida do seu Geraldo. A notícia veio junto, praticamente, com a aposentadoria compulsória da minha primeira estante. Naquela mesma noite da sua partida, eu planejei que iria no fim de semana para trocar uns livros que sobraram da última triagem. A biblioteca miúda que cultivo há 30 anos sempre se oxigena. Coloco alguns exemplares pra circular quando vejo que não vou mais retornar a eles. É um exercício difícil ainda, nas estou tentando praticar.
Houve um tempo em que eu era apaixonada por edições antigas com capa dura dos livros clássicos. Na pandemia, cheguei a encher uma prateleira com eles. Muitas dessas edições permanecem fechadas, passados cinco anos. Era só olho grande. Eu era uma menina com o olho maior que a barriga para devorar livros. Além disso, muitos livros se mudaram na divisão da biblioteca quando me separei.
Chegar no Geraldo e sair de mãos vazias era impossível. Se eu comprasse um livro, certamente ganhava algo de brinde para voltar novamente. E foi assim que eles superaram a concorrência do outro sebo que me mantinha fiel desde os tempos da adolescência.
Minha edição mais preciosa, o raro e autografado livro de cartas de Milton Dias, meu cronista preferido, é do sebo O Geraldo. A Estela, cunhada do seu Geraldo e responsável pela maioria dos atendimentos, teve o cuidado de achar e me avisar. Ela é assim – decora os autores preferidos da gente e sempre avisa quando tem algo novo deles.
Ao procurar os lugares para vender meu livro Cidades Invisíveis, escolhi deixar apenas lá e em outra livraria de rua no centro. Seu Geraldo, muito galante, ficou logo interessado e comprou seu exemplar, terminando a compra com a declaração: seu livro é lindo igual a você. Tiramos a nossa foto e talvez essa tenha sido uma das raras vezes que nos falamos.
- Outra memória forte é do gatinho siamês idoso que gostava de interagir com os clientes e também de carimbar com xixi e estragar alguns livros, especialmente os que estavam nos fundos do sebo. Por causa dele não consegui completar minha coleção de livros vermelhos do Érico Veríssimo.
Fortaleza ficou mais pobre com a partida inesperada desse livreiro que construiu as bibliotecas de tanta gente. Chegar lá e ver a cadeira vazia vai ser dureza. Mas, terei que ir em breve porque tem uma pilha de livros que preciso trocar. A vida do negócio deve continuar, com o cuidado dos parentes, assim espero. Guardando umas lágrimas para quando eu estiver por lá de novo, antes que outubro acabe.
