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Um olho no minigame e o outro na enxada

*A xilogravura “A árvore” é de autoria do artista plástico autodidata cearense João Paulo José da Silva. Historiador, trabalha com as linguagens artísticas da xilogravura, monotipia, pintura e escultura em madeira. No Instagram, publica no perfil @jp.artesubjetiva

Quando eu tinha 13 anos, meu pai decidiu trocar o piso do apartamento. Como a reforma ia mexer com a casa toda, passamos uma temporada na casa dos avós, até tudo ser concluído. 

Como era julho, minha tia que morava no mesmo bairro também quis passar esse tempo por lá. Eu e meus três primos, vindos da cidade, só tínhamos a obrigação de estudar. No entanto, meus primos que moravam no Córrego do Urubu tinham que trabalhar nas férias para ganhar um dinheiro extra. 

Era uma das máximas do meu avô – quem não trabalha, não come. Meu pai e os meus tios capinavam no roçado e pescavam desde os dez anos. Com eles, era a mesma coisa. Inclusive, alguns já tinham abandonado a escola. Aos 15, 16, todo mundo já trabalhava de alguma maneira.

Por essa época, a febre eram os video games portáteis de 20 jogos, os chamados brick games, recém chegados da China e do Paraguai. Com uma musiquinha irritante que indicava o jogo começando e que inclusive virou trilha de vários funks e músicas de torcidas de futebol, incluía os jogos de montar de vários tipos, o da cobrinha e uns de corrida. 

Rapidinho, eu fiquei viciada e passava horas com os olhos vidrados, lacrimejando, sem piscar, para finalizar todas as fases do jogo de montar que era o meu preferido. Meu primo da mesma idade também tinha o dele e ficávamos disputando quem vencia mais. Toda vida, ele ganhava, mas eu não desistia e ia até onde eu conseguia. 

Dali a dois meses, era o mês do caju e como meu avô tinha um terreno com muitos cajueiros, sempre pagava nossos primos para limpar a área ao redor e facilitar a retirada das castanhas. Uma das nossas diversões era subir nessas árvores. Era mais fácil porque os galhos eram retorcidos. Uns ficavam quase no chão.  A gente também levava os brick games para essas horas, verminosos que éramos.

Com essa nova brincadeira, nossos primos ficaram curiosos para jogar também. E, como a gente, também ficaram viciados. Eles capinavam a manhã toda, iam almoçar em casa e na volta passavam logo pela casa do vô para a gente ir junto com eles para os cajueiros e revezarmos quando alguém perdesse.

Deu tudo certo até que o meu avô começou a perceber que o serviço não estava rendendo como antes. Uma vez, chegou de surpresa e pegou um jogando e o outro esperando a vez. Ficaram pálidos, com medo. Não prestou! O vô deu um carão daqueles e a gente ficou se sentindo culpado de atrapalhar o trabalho dos primos. 

Acho que essa foi uma das primeiras vezes que a gente percebeu essa diferença incômoda entre nós. Mais tarde, soube outras formas que me deixaram ainda mais triste. Era injusto que a gente pudesse se divertir nas férias e eles, trabalhar. Tínhamos a mesma idade. Para piorar, também era comum encontrar quem dissesse que na roça, quem só estuda é preguiçoso. Meu avô era exceção por ter mandado para a escola todos os filhos. A maioria das pessoas não tinha esse pensamento.

O tempo passou e, na segunda geração, dos filhos dos meus primos, isso foi corrigido em alguns casos. Os dois filhos de um dos meus primos que deixou a enxada para jogar estão na Universidade. O outro tem sua casa própria, vive de fazer passeios para Jeri e tem uma vida estável. Nem todo mundo teve essa mesma trajetória, mas pelo menos, hoje, as pessoas têm uma mente mais aberta para a importância de estudar. 

Porém, ainda hoje, eu evito pegar nos joguinhos de montar dos minigames, porque eu não sei a hora de parar. A infância ainda perdura em mim de muitas formas e essa é uma delas.