“De vez em quando Deus me tira a poesia./ Olho pedra, vejo pedra mesmo”.
(Adélia Prado)
Posso até fugir dos problemas na escrita. Mergulhar fundo nos livros e nas pequenas bobagens do dia a dia. Mas, tem dias que nem isso salva. Nessas horas, parece que tudo entra em parafuso. Preciso respirar devagar, destravar a mandíbula, fechar os olhos e tirar o foco do que me aflige. Quando penso que estou sozinha para lidar com isso, sinto um aperto na garganta que me sufoca. Um auto abraço ajuda a soltar a respiração. Calma, digo em pensamento.
Escrever, nessas e em outras horas, é como um remédio. Um jeito de desabar antes de levantar e seguir com a rotina. Se acho papel e caneta, escrevo aos garranchos, choro e borro tudo. Escrever no celular também ajuda. Já fiz cartas enormes para entender melhor meus sentimentos. Depois de um tempo, a releitura revela que somos outros e aquilo que angustiava deixou de doer como antes.
Para quem trabalha com a criatividade e a palavra, estar cansado é desafiador. Como encontrar poesia sem ter dormido direito, estando chateado com o rumo da vida? Desde que acordei, procurava algo que rendesse uma crônica, mas as palavras não formavam frases com sentido. Como escrever um texto desse jeito? Será que até isso vai ser tirado de mim?
Essas perguntas não tem respostas, mas a solução estava na própria descrição dos acontecimentos dessa manhã. Uma segunda em que, mais uma vez, meus filhos adoeceram juntos. Depois de conseguir resolver um problema no banco, ninguém aceitava a corrida de Uber. Quarenta minutos de humilhação e nada. Foi o jeito andar quatro quarteirões para a parada de ônibus mais próxima. Antes que eu chegasse lá, passam dois ônibus. Não pararam pra mim, nem eu correndo para chegar no ponto.
Depois de uns quinze minutos, consigo pegar a condução. Chego atrasada no trabalho. Erro com bobagens e coisas que eu deveria saber. Continuo sem crônica, sem tema poético nenhum.
A borboleta monarca que eu não via há meses apareceu no pé de flamboyant. Parece uma folhinha seca voando. Grande droga! E ela vai resolver a tua vida? Não, né?
Sigo para o almoço e percebo o pé de petúnia mexicana da esquina florido. Fotografo para não esquecer. A alma continua gelada e ferida. Os olhos, cegos e insensíveis para a beleza das coisas.
Se até Adélia Prado, a poeta das coisas pequenas e da mística feminina, ficou sem poesia porque Deus tirou dela, quem sou eu na fila do pão para ser sensível às belezas a cada semana. Por hoje, não vejo nada além de pedras. Mas, amanhã é outro dia. Quem sabe eu consiga ver…
