Após uma aula online à noite e finalizar mais um dia de trabalho, tomei um banho e fui contemplar a lua sozinho, com ou sem chuva, no Bar do Vaval. Achava eu que, pelo decorrer da hora, não haveria mais ninguém. Lá estavam dois amigos da turma do bem, como diz o Raimundo Fagner. Desses caras calmos, que usam mais a audição do que a fala, e um outro mais velho que há tempos não o via por lá. Posicionei a cadeira ali, de frente para aquele satélite natural que parece não mais interessar à população antinatural dos grandes centros urbanos. A chuva ameaçava despencar, o vento frio acalmava a noite e as nuvens encobriam a lua feito um tecido esculpido em mármore pentélico, parecendo tecidos translúcidos no corpo das deusas do Parthenon esculpidas pelo gênio Fídias. Fiquei ali, calado, ouvindo-os falar sobre a guerra dos EUA e Israel contra o Irã. Após muitas opiniões, um deles instigava-me: E aí, professor, o que você acha? Resolvi integrar aquele papo sem imposições ou verdades. Pois é, o Irã não declarou guerra. Na verdade, foi atacado, e Trump o justificou como um ataque preventivo, sem que o Irã representasse uma ameaça urgente e sem possuir bomba atômica. O Irã está localizado em um planalto rodeado por montanhas. Enviar soldados norte-americanos por terra em um território desconhecido seria a decretação da morte de muitos, como aconteceu no Vietnã. Trump está às vésperas de uma eleição e a sua popularidade só despenca. A pressão popular com a morte de soldados não seria nada interessante. O dono do estabelecimento, bom em geopolítica mudando o rumo da prosa, disse: “A China não está no conflito diretamente e sairá mais fortalecida, e o Brasil teve e tem tudo para ser uma grande potência.” Então, num tom provocativo, comentei: “Não se tornou potência, porque os militares entreguistas se submeteram aos interesses políticos, econômicos, culturais e educacionais dos Estados Unidos. Na área da educação, por exemplo, os militares unificaram a História e a Geografia, criando um tal de Estudos Sociais, no qual você nem aprofundava a história e nem a geografia, retiraram o ensino de sociologia e filosofia, impuseram o Ensino Profissionalizante em escolas públicas sem que tivéssemos professores com formações especializadas, em escolas sem estrutura física, sem laboratórios, a reforma universitária de 68, etc e tal. De forma simples e direta, não existia nesse projeto educativo o objetivo de formar uma sociedade politizada, reflexiva e crítica da realidade. De repente, o mais velho fez uma reflexão: a lua cheia, linda e nós aqui preocupados com as guerras, com a morte de inocentes, com o preço do petróleo, dos produtos e a nossa vida. E o planeta e o universo? O outro reagiu: “O mundo não é só aqui, não faz sentido. Acho que voltaremos em um outro espírito.” Disse-lhe então: “Você tem noção de quantos espermatozoides nós vencemos para estar aqui. Nós somos vencedores e únicos”. Afinal, como se daria essa transformação em um outro espírito?”. O planeta terra no universo representa um pingo d’água no Oceano. Parece que não somos nada: “Por que eu venci a corrida pela vida e nasci? Então, somos vitoriosos. Mas, o que vim fazer aqui? As religiões de modo geral têm em comum, princípios fundamentais voltados para a ética, a moral e o comportamento humano e têm como consenso: a compaixão, a empatia, o amor, a fraternidade, a solidariedade, ser caridoso, ajudar os enfermos, dar água a quem tem sede, comida a quem tem fome, enfim, o respeito pela vida, que é divina. Aliás, quanto mais os homens se afastam desses princípios comuns de todas as religiões, afastam-se de Deus. A satisfação de todos era visível, pelo prazer de ter dividido conhecimentos, experiências e aprendizados com aquelas conversas filosóficas de bar. Reflexivo com o desfecho da conversa, o Vaval sintetizou numa frase a nossa condição de seres humanos: “Todos nós somos divinos, porque procriamos um outro ser divino”. Boa Páscoa de reflexão para todos.
Todos nós somos divinos, porque procriamos um outro ser divino
Após uma aula online à noite e finalizar mais um dia de trabalho, tomei um banho e fui...
