Ainda não conheço a carnavalização. A vida toda me senti deslocada quando tocava aquele som alto e as músicas frenéticas. Não sei bem o por quê. Fui uma moça de retiros. Na maioria desses feriados, ficava a refletir, me preparando para a Quaresma. Era introspectiva, envergonhada.
Quando a vida adulta veio, costumava viajar para visitar a minha família ou a de quem estivesse ao meu lado. Ficava de chamego o feriado inteiro, me aventurando entre ingazeiras e nevoeiros. A vontade maior era ir para festejar entre jazz e blues na cidade vizinha.
Depois de findar esse ciclo, festejei meu primeiro e único Carnaval da vida. Munida de barraca e baralho, subi a serra com pouco dinheiro e muita vontade de me divertir. A diversão e a decepção dividiram espaço nos quatro dias e eu prometi que voltaria para ressignificar aquele tempo, que teve seu valor.
Guardo comigo principalmente o barulho da chuva na barraca de madrugada, o show dos Renegados, curtindo a música, já meio alta da bebida, o gosto bom do chocolate quente e do fondue. O corpo ensopado da chuva na estrada procurando uma cachoeira grátis. As risadas da turma de amigos. Acabou sendo bom, no balanço de tudo.
Vieram os filhos, empregos com diárias generosas nessa época de folia e eu deixei para aproveitar o Carnaval mais adiante, desse jeito que apenas senti o sabor e fiquei com gostinho de quero mais.
Passaram 20 anos e cá estou. Ainda doida de vontade de carnavalizar do jeito que eu gosto, que é ouvindo música boa, comendo bem e com boas companhias. O que me impede? Planejamento e parar de esperar para que a vida me mostre que esse ano vai dar certo.
Caminha que a estrada vai se fazendo no percurso. Se eu tivesse pensado mais, talvez nem aquele Carnaval de 20 anos atrás tivesse dado certo. Quem sabe minha sina seja fazer viagens e caminhos no improviso. “Meter as caras” e simplesmente ir.
Essa terça é o Carnaval de fato. Planejei passar do jeito que eu mais amo. Um aprendizado recente tem sido lavar as tristezas deixando as lágrimas desaguarem no mar ou se misturarem com o suor. Se a chuva vai deixar ou não eu cumprir meus planos, só vou saber no decorrer do dia.
Vou continuar lutando e reaprendendo a trilhar esse caminho que escolhi. A vida segue. Sempre é tempo de sonhar. Ainda tenho metade da vida pela frente. Ou não. Pena que agora só posso me planejar para o Carnaval de 2026.
