O ano era 2004, o meu último na Universidade. Precisava escolher um tema para a pesquisa da monografia. “Se você gosta de cultura popular e mora em Caucaia, que tal visitar o povo indígena Tapeba? Era perto e talvez fosse um tema interessante.” – quem disse foi o Gilmar de Carvalho, meu orientador da pesquisa no Jornalismo. Segui seu conselho.
Foram muitas as visitas. Uns seis meses de conversas quinzenais com várias comunidades. Com o projeto feito, as orientações passariam a ser mensais, na sala do Gilmar. Eu, com o povo Tapeba e Sabrina Lemos, com o povo indígena Tremembé.
Durante a etapa da pesquisa bibliográfica, li muita coisa sobre os tremembés também. Isso por curiosidade e porque existiam mais pesquisas sobre eles. Essa etnia ocupava todo o litoral cearense, inclusive Jijoca de Jeri, terra dos meus avós paternos. As lendas eram semelhantes às contadas pelos meus parentes, inclusive.
Uma das referências em pesquisa sobre os povos indígenas era o professor Gérson Júnior, da Universidade Estadual do Ceará, que estudou os rituais da dança do Torém, entre os tremembés de Almofala, em Itarema, região norte do Ceará. Lá, havia uma igreja dos anos 1700, soterrada pelas dunas no fim do século XIX e desenterrada nos anos 1940. Meus olhos brilharam, doida para desbravar. Mas, como ir até lá com dois estágios?
Conforme a pesquisa da Sabrina Lemos ia avançando, mais eu seguia com aquele desejo. Vi documentários, li alguns livros, fiz pesquisa nos jornais e sempre aquela igrejinha branca aparecia. “Mas não, eu não posso ir agora. Já basta ter que andar nos trilhos sozinha no meio dos matos da Caucaia, me arriscando. Dormir na casa de desconhecidos, já era demais” – eu justificava para o meu desejo e adiava.
Pois bem. Terminei a faculdade, tentei mestrado, fui reprovada. Enterrei o sonho da academia, arranjei emprego, casei, tive filhos. E o desejo foi ficando para trás. Talvez, só nos livros mesmo eu veria aquela igreja de perto. De brilhoso, o sonho foi desbotando e quase se apagou.
Mais de uma década depois, a igrejinha ressurge nos meus assuntos. Uma amiga fez uma especialização em escrita e queria fazer um livro sobre aquela região. Almofala era a cidade da mãe da minha amiga. A especialização termina e surge a notícia de que a professora dela iria escrever um livro incluindo a igrejinha branca e a cultura do povo Tremembé no enredo. A professora era a premiada escritora Socorro Acioli.
O tempo passou mais um pouco e eu seguia na espera ansiosa pelo livro dela, já totalmente sem esperança de ir em Almofala. Desaprendi a andar sozinha e minhas companhias não tinham interesse de conhecer.
Uma palestra na Biblioteca Estadual do Ceará, em 2023, acendeu a esperança outra vez. Mostrando os bastidores da escrita do livro, Socorro Acioli cita grolado com peixe assado. Essa era uma receita afetiva da minha família paterna, que comíamos em São Paulo, feita pelo meu pai, no tempo em que eu era bem pequena. Ele trouxe de Jijoca. Herança indígena repetida na maior parte das casas daquela região. A emoção me toma e eu lembro do meu segundo livro, adiado até hoje. Eu precisava continuar a minha história também.
O livro Oração para Desaparecer, de Socorro Acioli, é lançado, compro meu exemplar depois de uns meses. Choro de novo com os detalhes de Almofala, dos Tremembés, da paixão intensa dos personagens, o cenário praiano semelhante ao da minha adolescência. Então, surgem duas oportunidades de ir até Almofala. Duas! Será que era a chance dobrada pelos vinte anos de espera?
O restante da história eu conto na crônica da semana que vem. Me aguardem!
