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Sussurros da loucura 

O risco de se perder e o trabalho de se sustentar

Domingo de manhã, como de costume, acordamos cedo. Dormir até tarde aos fins de semana é luxo de quem não tem filhos pequenos. Oito da manhã, enfio as crianças no carro e vamos à padaria. Terça é dia de São Patrício, e eu queria comprar pão de soda, um pão tradicional da Irlanda que utiliza bicarbonato de sódio e buttermilk (leitelho) ao invés de fermento biológico. Voltamos para casa com o pão e outras tantas guloseimas devidamente confeitadas com glacê e granulado verde.

Às 10h, com meu café em mãos, sento à minha mesa e explico para as crianças: “A mamãe agora vai assistir a uma aula. Durante a próxima hora, preciso que vocês não me interrompam, a menos que seja uma emergência. Não quero saber de confusão entre vocês. Isso aqui é importante para a mamãe.” 

Coloco meu fone de ouvido e adentro outro universo.

Espero fazer o mesmo ritual pelos próximos cinco domingos. Talvez com o mesmo sucesso, talvez não. Porém, tentar é preciso. Aprender algo novo, melhorar naquilo que eu já amo fazer, expandir meu repertório com aquilo que ninguém tira de mim: conhecimento.

Inscrevi-me nesse curso de escrita no meio de uma noite insone. Talvez tenha sido um sonho febril ou um delírio, mas decidi que seria meu presente para mim mesma, no mês em que eu faço 40 anos. Todas as aulas serão ao vivo, e um detalhe importante: elas não ficarão gravadas. Ou seja, preciso estar ali, presente, inteira, semana após semana. 

Um tipo de comprometimento que teria me gerado níveis exorbitantes de ansiedade alguns anos atrás, mas que hoje, graças à resiliência que construí com o exercício físico, eu sei que dará certo. Não sem interrupções, não sem algum estresse, não de maneira perfeita. Mas dará certo de um jeito que provavelmente não daria se eu tivesse a flexibilidade para escolher quando assistir às aulas.

Esse é outro aprendizado recente para mim: ter escolhas nem sempre é bom. Desde que me inscrevi nas aulas de crossfit, há dois meses — com horário fixo — percebo o quanto foi benéfico tirar de mim o peso de decidir quando treinar.

Desde então, tenho pensado numa frase do Fabrício Carpinejar: “Liberdade na vida é ter um amor para se prender.” 

A liberdade não é a ausência de compromissos, mas a escolha consciente de se dedicar e criar raízes com alguém. Ou com algo.

Logo na primeira aula, Cris Lisbôa trouxe uma frase da Ana Cristina Cesar que me atravessou: “Por que essa falta de concentração? Se você me ama, por que não se concentra?” 

Falávamos sobre escrita. Sobre rotina, esforço, compromisso. Sem compromisso, tudo vira só possibilidade. 

É isso, pensei. Se eu amo a escrita, por que não me concentro mais nela? E, logo em seguida: se eu amo, por que não me concentro mais em mim? Em tudo que me faz bem, que alimenta meu corpo e minha alma. Ainda que não faça sentido para os outros ou não traga dinheiro.

A verdade é que escrever, sendo mulher, sendo mãe, é um ato de resistência. É insistir em ter um “teto todo meu”, no qual meus pensamentos possam vagar livres até que eu os capture e coloque no papel. Amarrando dali, costurando de cá, fazendo algo só para mim, que me ancora em mim mesma. Escrever, para mim, é a ousadia de me pôr em primeiro lugar.

Para outras mulheres, pode ser outra coisa: arte, pintura, costura. Qualquer coisa que ela faça por si mesma. Qualquer beleza que ela coloque no mundo que antes não existia, que não seria possível sem ela.

Este mês, li A vida invisível de Eurídice Gusmão da Martha Batalha. Eu devorei o livro e a vida daquela mulher, que tinha tanto para contribuir ao mundo, não fossem as amarras de ser uma mulher no Brasil dos anos 40. Muitas dessas amarras continuam existindo; um tanto impostas pelo mundo e outras impostas por nós mesmas e pelas crenças que carregamos.

Uma das coisas que mais me marcou foi perceber como o maternar de Eurídice era afetado pela sua sensação de utilidade e engajamento com o mundo. Ela era uma mãe mais atenta, mais presente e mais feliz quando também se ocupava de si. Em um trecho, isso aparece de forma quase sufocante:

 “Eurídice precisava de um novo projeto. Precisava de algo que preenchesse as manhãs de ócio e as horas angustiadas de fim de tarde, quando os filhos ainda não tinham chegado da escola e quando tudo não parecia levemente enlouquecedor, tudo era irremediavelmente enlouquecedor. Nessas horas perdidas ela podia sentir a solidão se transformar em angústia, a angústia se transformar em loucura e a loucura sussurrar-lhe calma e firme: Um dia eu te pego, um dia eu te pego, um dia eu te pego.”

Eu reconheço bem esse sussurro da loucura, a ansiedade à espreita, a ameaça de perder a cabeça entre as demandas, as repetições do trabalho do cuidado e o tédio. Lembro de dizer à minha psicóloga, durante a investigação de TDAH, que nos momentos de ansiedade eu imaginava pegar minha mente nas mãos e redirecioná-la: “Epa. Não é por esse caminho.” 

Funciona. Me devolve o controle. Mas eu não relaxo. Reconheço o risco de me perder. Sinto que preciso estar em movimento — no corpo e na mente — para não ser engolida pela ansiedade e pela depressão (comorbidades comuns ao TDAH, inclusive diagnóstico que recebi).

Esse movimento é, para mim, necessário tanto para o corpo quanto para a mente. O exercício dos músculos e dos pensamentos como antídoto à ansiedade. Como âncora, o peso, a substância que não permite que eu me distancie de mim mesma. Como disse Clarice Lispector, também citada na aula: “Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida.”

E você? O que tem feito para salvar a sua? O que tem ousado sonhar, construir, criar? Aos domingos ou no meio da semana, de manhã cedo ou tarde da noite, na calmaria ou no caos, na clareza de quem sabe o que faz ou na incerteza de quem se permite descobrir? Este não é apenas um convite, é uma permissão para que você cave espaços no tempo da sua vida e exista em toda a sua inteireza. Às vezes, quando a loucura sussurra, o melhor que podemos fazer é convidá-la para dançar.