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Sobre ser romântico nos tempos de amor líquido

Uma das frases mais icônicas e compartilhadas do escritor Ariano Suassuna é a que ele  assume que se lascou porque era romântico e não sabia não ser isso. Compartilho dessa lamentação do escritor. Se ser romântico já era uma coisa meio esquisita nos anos 2000, quando eu fui solteira a última vez, que dirá agora, Ariano… 

Nesses tempos líquidos, o povo só paquera por aplicativo. Encontros quase às cegas, já com coração em brasa de tanta conversa pelo WhatsApp. Mas essas brasas geralmente apagam rápido, mesmo queimando tudo o que puder ser queimado. Tem que ser tudo para ontem. Se os vídeos do TikTok são ligeiros, assim como os reels do Instagram, para quê aguardar? Cuida que a fila precisa andar, meu povo! 

No meu caso, os lapsos de memória por conta do cansaço físico e mental retardaram bastante a criação de um perfil nos aplicativos de relacionamento. Fiquei às voltas um tempão tentando lembrar qual era a senha do meu Facebook, do meu email. Nesse tempo, deu logo foi uma crise de ansiedade, porque meu celular já estava nos últimos suspiros e eu imaginava que quando ele morresse de vez, talvez eu perdesse o acesso a todas as minhas redes sociais, porque não lembrava de senha nenhuma. O meu antigo número da Oi também foi desativado e  não recebe SMS. E a preguiça de ajeitar tudo isso? O sono chegava de novo e eu deixava para depois.

Impensável paquerar na rua, depois daquela sessão de cinema, no restaurante, na festinha. O povo olha rápido para o outro lado, ou para baixo, no celular. Ninguém se vê. Meus pais se conheceram em uma festinha de criança. Hoje, ninguém tem mais tempo de papear nos eventos. Todos nos seus mundos fechados. Cadê aquele sorriso, aquele brilho no olho diferente, o olhar 43? 

Quando finalmente eu me atrevi a criar as contas, a experiência não foi muito satisfatória. Medrosa, eu sempre chamava as pessoas para o Instagram e, na maioria das vezes, eu percebia o descompasso. Ou a conversa morria de vez, ou, então, começava a ganhar outras nuances. As fotos mostravam os gostos pessoais e isso, às vezes, era um balde de água fria. Tanta gente querendo opinar sobre tudo. Outras vezes, era perceptível que a pessoa apenas copiava as mensagens e mandava a mesma coisa para a lista de transmissão dos “contatinhos”.

Se a conversa gerasse um encontro, era raro a conexão se manter depois. Dois encontros eram o limite. Quando eu era adolescente, não imaginava que seria tão diferente o mundo dos relacionamentos entre os adultos na quarta década de vida. Naquela época, parecia ser tudo mais verdadeiro, olho no olho, não tinha essa história enrolada que hoje é comum entre as pessoas de meia-idade. Tenho pelo menos três amigas que tiveram que voltar para a terapia após terminarem com os ficantes. Dizem que a dor de um quase é pior do que a de algo que realmente tenha rendido. Parece que a história não fecha. Vira um relacionamento fantasma.

Outra coisa que percebi foi que a maioria, homens e mulheres, está traumatizada. Tudo bem que um divórcio é um processo doloroso, é o fim de um sonho de uma vida juntos. E nessa altura da vida, aos 40, quem não se juntou e tem filhos, pelo menos viveu um relacionamento longo. Mas será que o amor é algo tão ruim assim?

É, Ariano, eu me lasquei valendo. Tô fora do tempo. Ainda penso em olhar as cores do entardecer, escrever carta, compartilhar playlist, olhar o pôr-do-sol, a lua, as estrelas, o mar. Não me fechei, como eu deveria ter feito. 

Eu geralmente penso: vai que ainda existe alguém como eu no mundo… 

A esperança às vezes fala um pouco mais alto. Em outras, a vontade é cauterizar esse coração de gente besta e transformar em inspiração e “sangue nos olhos” para escrever livro novo, passar em um concurso público e malhar pesado para ficar mais padrão. Colocar uma pedra no lugar do coração e enterrar de vez essa esperança.

Então, o sono vem, amanhece outro dia e a gente esquece. E, depois, esse buraco no coração lateja de novo. Vou é lembrar dos prazos para os planos que fiz para mim. Focando neles, eu ganho mais.