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Sobre o tédio e a falsa impressão de força das mulheres

O tédio faz muitos cometerem desatinos. Tem gente que, para fugir do tédio, marca encontros com desconhecidos nos aplicativos de namoro. Outros, procuram esportes de aventura. Tem também quem prefira distrações mais calmas, como maratonar séries, ler um livro, caminhar, correr, olhar o mar.

Minha mãe, para fugir do tédio de uma sexta-feira solitária, inventou de plantar umas mudas que ganhou da vizinha. Eram mais de dez da noite e ela, mesmo já tendo tomado seus remedinhos para dormir, teimou em descer a escada para plantar nos jarros novos que tinha comprado naquele dia.

Idosos, tédio, escada e noite não são uma combinação muito boa. Resultado: quebrou o braço e machucou a perna. Ficou internada o fim de semana inteiro e vai precisar passar quatro meses com o braço direito imobilizado.

Eu, que não lido tão bem com catástrofes, fui para a casa dela aos prantos. Imaginava o que de fato aconteceu. “Ela deve ter quebrado algum osso e foi, com certeza, porque fez alguma travessura. Vou ter que passar uma temporada dormindo no hospital”, pensei logo.

Não tem seis meses que ela trincou uma vértebra devido à outra queda da própria altura e passamos uma noite no maior hospital de trauma do Estado. Uma experiência que eu nunca vou esquecer.

Além da minha mãe, que é uma idosa jovem, eram dezenas de idosos e adultos que quebraram algum membro devido a quedas da própria altura.

Dessa vez, ela caiu porque foi teimosa. Conversando com outros pacientes, a maioria que caiu foi por algum tipo de exagero. É difícil compreender que algumas atividades não podem mais ser realizadas.

Uma idosa tinha quebrado um braço por ter escorregado na cozinha depois de lavar todos os azulejos.

Outra foi limpar a geladeira e esfacelou a mão ao escorregar na água do degelo do congelador.

Como acompanhantes, a maioria é mulher. No entanto, as mulheres mais jovens geralmente estão sozinhas. Seja porque preferem não ter ninguém se incomodando com elas ou mesmo pelos familiares não se importarem ou não poderem estar cuidando.

Os homens só estão sozinhos quando estão em situação de rua. E mesmo assim, sempre tem alguém pra ajudar, com raras exceções.

Por que não tem quem cuide das mulheres a não ser elas mesmas? O abandono também é muito maior das mulheres doentes. Vide o caso da famosa Preta Gil, que foi traída em pleno tratamento contra o câncer. Uma realidade super comum, especialmente entre as anônimas.

Eu sigo com raiva e sem me conformar com isso. Vou tentar transformar essa raiva em força de vontade para me tornar uma idosa fitness. Sedentarismo é certeza de ter uma velhice adoecida. Não quero isso para mim.