“Melhor a emoção de tudo/Que acontece em volta da gente/Melhor chorar saborosamente por que viver” – Gonzaguinha in Coração (1993)
Já vivi o bloqueio de emoções importantes. O nó na garganta vinha e ficava por dias. Nunca transbordava pelos olhos nem trazia alívio. Parecia ter uma muralha. Ou melhor, era um quebra mar que evitava a invasão das ondas nos dias de ressaca. Com o decorrer do tempo, eu mesma esquecia o nó até que outro aparecesse em seu lugar.
E assim passaram meses e alguns anos. Foi preciso para que o desaguar das emoções não atrapalhasse o correr da vida, com suas muitas demandas, que todo mundo tem.
Quando a emoção rompeu a barreira de pedras do quebra-mar que eu construí, houve uma destruição, um maremoto de lágrimas, paixões, raivas acumuladas. Foi um pequeno caos, mas era preciso para que esse processo findasse e outro tivesse início. Depois da enchente, aos poucos fui organizando os escombros e entulhos. Jogando fora o que não servia mais e guardando com carinho o que seria um souvenir para que eu lembrasse do que passei.
Hoje, as ondas voltaram ao seu fluxo, o que não impede uma ressaca, de vez em quando. Minha personalidade é sensível por natureza, posso controlar em casos necessários, mas esse é meu jeito de ser no mundo, a minha força e a minha fraqueza.
Por ser desta maneira, chorei com o texto de interpretação de um concurso público recente. Era covardia colocar um texto falando das mentiras que contamos para as crianças para uma mãe que acabou de entregar o filho mais velho para a maioridade. Eliane Brum nunca esteve para brincadeira em suas crônicas, todas muito sensíveis e poéticas.
Envergonhada, durante a leitura, escutava uma sinfonia de narizes irritados na sala com ar-condicionado. No entanto, sei que era de alergia porque ninguém que eu conheça chorou lendo esse texto.
Não contive as lágrimas também no dia do show de Sandra e Amora Pêra com essa canção de Gonzaguinha – Coração – que eu não conhecia. Amora era o fruto da paixão dos seus pais e dirigiu o show, um dos mais bonitos que já vi no Theatro José de Alencar.
De uns tempos para cá, o que tenho mais feito é abrir as portas para a vida. O clarão do dia amanhecendo ilumina a sala de cortinas sempre abertas e de janelas cheias de plantas. Eu quero vida dentro de casa e dentro de mim.
Quando as lágrimas caíram nesse show, a reflexão foi sobre o quanto eu teria vivido pouco se não tivesse aberto as portas para a vida. O preço que se paga é feito de lágrimas porque o coração fica vulnerável às emoções. No entanto, o rio que vem de dentro lava a alma e limpa os nossos olhos para o novo caminho. Prefiro a emoção, chorar corajosamente porque isso me traz lucidez.
