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Sobre caminhadas, ansiedade e jasmins amarelos

Recentemente, aprendi que poderia andar sem destino para jogar pelos poros, com o suor, as minhas angústias. Primeiro, comecei pertinho de casa, rodando no condomínio. Não gostei de estar presa, dando voltas, sem sair do lugar. Quando pude, iniciei as caminhadas até a lagoa do Tabapuá. Ia cedinho, subia e descia uma passarela imunda e na lagoa, encontrava muitos pássaros, paz, natureza, o espelho d’água. Era revigorante. 

Depois, por alguns meses, coloquei o plano de caminhar na praia em prática. Meu trabalho é na Praia de Iracema. Eu poderia caminhar olhando o mar. Que pequeno luxo!  O grande desafio era chegar mais cedo para não me arriscar, é um pouco deserto. Depois de uns meses, arranjei um trabalho free lance de noite. Desisti de ir. 

Recordo as três primeiras caminhadas que fiz por lá, vinda de casa. Fui às 6h de um domingo, em um domingo no entardecer e em um sábado, também pela tarde. 

Quando fui pela manhã, saí de casa com o céu escuro. Meu medo era pegar um uber sozinha. O senhor que me levou disse que era seguro e esse era o horário em que as pessoas voltam das festas. Até se admirou com essa vontade tão grande de caminhar longe de casa. Meu desejo, na verdade, era me embriagar de beleza. Andava cheia de problemas, precisava desse respiro. Se não, ia correr doida.

As melhores partes do percurso são o começo e o fim. No início, tem a chegada dos barcos dos pescadores no Mucuripe. Uma multidão disputando os peixes frescos. O mar coalhado de barcos é muito bonito. No fim do percurso, no espigão perto do Hotel Sonata de Iracema, tem o meu Mara Hope acenando pra mim. Eu contei pra ele em pensamento, com uma água de coco, o que me angustiava. Ele nada disse, claro. Mas voltei pra casa mais tranquila, com a cabeça mais leve. Pelo menos, eu disse para alguém.

No entardecer do domingo, eu cheguei tarde demais e não consegui acompanhar o sol indo embora. O terminal encomprida o trajeto. Dentro do coletivo, muitas pessoas iam fazer o mesmo que eu, mas algumas meninas bem jovens, aparentemente, iam ganhar a vida com seus corpos moços. Quantos anos teriam? 15, 16? 

Não gostei da lotação do domingo. A Praia dos Crushes não permitia nem a gente dar uns passos mais rápidos. Terminei voltando de moto uber porque as paradas não pareciam seguras.

No sábado, já sabendo que a passagem pelo terminal deixaria a ida bem mais demorada, desci no Centro e peguei uma moto. Cheguei meia hora antes, a tempo de ver o sol como uma bola vermelha, se pondo devagarinho. Ainda temi que alguém caísse em cima de mim. Várias pessoas desciam de paraquedas no aterro da Praia de Iracema, não entendi vindas de onde. Teve uma hora que pensei que um casal ia ser empalado por um dos postes. 

Parei já perto do Jardim Japonês para a água de coco. Nesse dia, eu estava mais tranquila. Minhas ansiedades tinham se dissipado em parte. O roxo do céu, com aquela mesma estrela solitária, me rendeu um suspiro. Estava melhor. 

Domingo, o dinheiro não dava para repetir o passeio. Fui revisitar a velha Avenida da Integração, entre Araturi e Caucaia, depois de deixar os mantimentos para minha mãe passar a semana. Era lá que eu caminhava quando morava no bairro. Fui sozinha. Era domingo.

Mesmo com medo, fui jogando as ansiedades fora. Andei sozinha boa parte do percurso de ida. Na volta, alguns homens corriam. Um deles, ao lado do filho. Achei fofo e lembrei do meu filho. Marejei os olhos. 

O pôr-do-sol avermelhou o céu. Não tive coragem de fotografar, fiquei com medo porque tudo estava deserto. Gaviões voavam em dupla. Uns patos diferentes também, em grupos maiores. 

Já anoitecendo, encontrei um senhor meio bêbado levantando a camisa. Intuí que ele faria algo comigo e fui para a calçada. Ele cambaleou e não foi atrás de mim. Na ida e na volta, o percurso mais perto do meu antigo endereço era cheio dos obstáculos que eu já conhecia. Sacos de lixo rasgados, porcos soltos, buracos, fezes de animais. 

Mas, tinha um jasmineiro amarelo no meio fio. Também tem um na Beira Mar e na BR 222, no meu caminho para a lagoa. Deus ainda está comigo. Apesar de tantas decisões ruins, tempestades. Ele planta os jasmins amarelos para me alegrar. Eu sempre vi isso nos caminhos. Vou ficar tranquila. Em algum tempo, essa dor vai findar. Ou, pelo menos, eu vou conseguir conviver com ela.