* Ilustração é de autoria do artista visual Vando Figueiredo
Um porto pode trazer mercadorias, pessoas queridas, mudanças, documentos, comida… Nos anos 1920, quando uma empresa inglesa projetou a ponte que foi devolvida ao público neste fim de semana, era essa a finalidade do lugar. No entanto, passaram-se seis anos e o novo porto não foi inaugurado. A Ponte Velha continuou com essa função até inaugurarem o Porto do Mucuripe, em 1940.
A Ponte dos Ingleses se tornou um mirante. Um lugar para que os apaixonados ou aqueles que gostavam de olhar o mar pudessem avistar o entardecer, o nascer da lua. Os enamorados, tímidos, talvez segurassem apenas nas mãos, já que nos anos 1920 devia ser um escândalo beijar na boca em público. Aquela região da cidade, à essa época, dispunha ainda de poucos bangalôs, um deles a Vila Morena, o Estoril, hoje sede da Secretaria de Turismo de Fortaleza.
De 1926 a 1989, quando ocorreu o tombamento como patrimônio histórico, não há muitos registros de reparos. Certamente, a cada agosto e janeiro, deveria ser um Deus nos acuda. As ressacas do mar na Praia de Iracema sempre foram fortes.
Quando o Porto do Mucuripe foi inaugurado, o mar avançou, derrubando alguns casarões e o famoso restaurante do espanhol Ramon Romero, um dos points da época à beira mar. Depois de o restaurante ser danificado pela ressaca, ele aproveitou sua experiência para administrar o Hotel Excelsior, na Praça do Ferreira.
Em 1994, os arquitetos Fausto Nilo e Delberg Ponce de Leon assinaram um novo projeto para a Ponte dos Ingleses, que incluia uma galeria de arte e um observatório marinho. Além da Ponte, eles, mais adiante, também fariam o projeto do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. A atual Praça do Ferreira também é deles, com projeto de 1991.
Essa Ponte, desenhada pelo poeta Fausto Nilo, de quem eu amo as canções, foi a que eu conheci, a partir de 1998.
Em cima das suas tábuas, eu apresentei para o mar e o entardecer alguns dos meus afetos, conforme contei na crônica Praia de Iracema dos meus Amores, que integra o livro Cidades Invisíveis.
Em 2018, o mesmo ano em que a Ponte foi fechada para visitação, o mar ainda levou a escultura do Sérvulo Esmeraldo, La Femme Bateau, que ficava na parte inconclusa. Teria ido ficar pertinho do Mara Hope, no fundo do mar?
Mês passado, resolvi andar sem destino pelos seus arredores e me dei conta de que a reforma estava quase no fim. A capa do meu livro finalmente voltava a existir concretamente. O céu estava com quase as mesmas cores que o artista plástico Vando Figueiredo escolheu para aquarelar aquele lindo desenho, feito especialmente para o Cidades Invisíveis que eu escrevi.
Foram seis longos anos para aquele lugar ser entregue novamente à população. Surpreendentemente, o mesmo tempo que a Ponte dos Ingleses levou para deixar de ter seu destino prático de porto para virar mirante. Certamente, bem mais belo e poético do que o que tinham programado para que ela fosse.
Ao refletir sobre esses anos de Ponte fechada, as mudanças de utilidade e ainda os reparos necessários pela exposição à maresia e pelos danos das ressacas que acontecem todos os anos, eu lembrei que também estou passando por uma reforma.
Em 2018, eu nem sabia que iria passar por transformações. Os afetos que eu disse apresentar aos mares bravios que passavam por baixo dela tinham se desfeito há muitos anos. As recordações, eu fazia questão de esconder embaixo do tapete. Não queria lembrar de nada e vivia arrastando correntes. Só esperava o dia acabar. Estava entregue, vivendo em função dos outros. Nem sabia mais quem eu era.
Primeiro, veio a mudança de casa. Depois, o retorno ao trabalho e novos projetos que me faziam brilhar os olhos. Outras mudanças estruturais parecidas com a implosão de um prédio vieram em seguida. Depois dessa demolição, umas paredes já começam a se reerguer, outras ainda estão no alicerce. Não sei quanto tempo vai demorar. Às vezes, eu penso que terminou uma parte e vem o tempo e a vida, com os seus imprevistos, desgasta tudo e eu tenho que fazer um reparo para continuar. Será que acabam as reformas dentro da gente?
Por hora, quero rever minha Ponte dos Amores, como diz o Guto Benevides. Ainda não sei quando, como, nem com quem, mas logo avistarei o entardecer por lá e venho contar o que senti.
