No final do século XIX, Lima Barreto, o pobre neto de escravos, revelou-se um brilhante estudante, sendo apadrinhado em seus estudos pelo Visconde de Ouro Preto. Na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, era um dos poucos alunos negros estudando em um ambiente de elite. Em suas observações, Barreto passou a sentir o preconceito racial e social estrutural da recém-proclamada República. Logo percebeu que a tal Coisa Pública não era tão pública assim, especialmente porque a proclamação havia acontecido sem a participação do povo, em que os negros, apesar de livres, continuavam sem acesso aos direitos sociais e políticos. Diante da apatia, acomodação do povo e da sociedade brasileira, agindo apenas como espectador passivo e não como protagonista, Lima Barreto escreveu: “O Brasil não tem povo, tem público”. De fato, da Proclamação da República de 1889 aos nossos dias, realmente muita coisa mudou, e não por interesse das elites. Se não vejamos: em 526 anos dessa jovem nação, o PT, apenas nesse de 2026, completa 17 anos de governo.
No entanto, as realizações econômicas, políticas, sociais e culturais são tantas que não caberiam aqui. Por outro lado, se queres deixar um bolsonarista ou um dos seus apoiadores de extrema-direita gaguejando, basta apenas perguntar por uma realização do governo Bolsonaro. Mas a questão agora diz respeito à perda de nossas conquistas após tantas lutas e de nossa soberania.
Outro dia, após a tensão política do resultado do primeiro turno das eleições, presenciei em uma mesa o bate-boca de um grupo sobre os conceitos de fascismo, nazismo e socialismo, quando perguntaram-me se ainda existia ou não a luta de classes. Argumentei que sim, não mais com a utilização das armas, mas pela busca da manutenção dos interesses entre as classes, notadamente da classe dos mais abastados. Sem me estender e de forma simples, dei-lhes um exemplo: “Vocês acham que um empresário rico votaria em um professor como eu?”. Claro que não, ele vota em um de seus pares de nível econômico e social que defenda os mesmos interesses. Então, por que vocês votariam em um candidato que não tem os seus mesmos interesses e, ainda, quer acabar com muitas das garantias e das suas conquistas sociais? Um dos rapazes que estava ali, sem parar de assistir e ouvir esses vídeos de fake e enganação que rondam as mídias, olhou e, com convicção, falou: “Foi o Bolsonaro que criou o Bolsa Família. Olha aí, com o André Fernandes vencemos de lavagem. Também vencemos com o Nicolas Ferreira, com milhões de votos. Eles vão mudar tudo”.
Era evidente em sua fala a percepção da vitória política de um candidato, como se fosse torcer por um time de futebol. Fiquei ali observando e perguntei-lhes: “Vocês já leram algum livro de História ou já foram às manifestações de rua para exigir e lutar pelos seus direitos como cidadãos?” A resposta foi uníssona, e doeu: “Não precisa ler, tem o celular que explica tudo”. E, por falar em leitura, conhecimento e tomada de consciência política, nesta semana, um amigo querido de adolescência, festas e rachas desabafou no grupo: “Nutro um sentimento confuso em relação a mim mesmo, quando penso que fui a favor da prisão de Lula — mas que arrependimento, tenho imensa vergonha em ver uma foto minha e de minha família com o boneco de Lula presidiário.
O que poderá vir por aí não é direita, e sim de ódio, intolerância, preconceito, etc, recheado com incapacidade, incompetência e corrupção, sob os aplausos de grande parte da população, principalmente a classe média”. Estudantes e jovens brasileiros, deixem os sofás, as poltronas de suas casas e os bancos das escolas e universidades, e desliguem os celulares. Inspirem-se nos movimentos de rua de 2013 e nos atuais movimentos de estudantes franceses e italianos que fazem protestos pelos seus direitos. Lembrem-se da confissão de Niemöller, adaptada por Bertolt Brecht: “Eles começaram a perseguir os comunistas; eu não protestei porque não era comunista. Depois, vieram buscar os judeus e eu não protestei, porque eu não era judeu. Depois, ainda vieram buscar os sindicalistas e não protestei, porque não era sindicalista. Aí, vieram buscar os homessexuais e eu não protestei, porque não era homossexual. Aí, então, vieram buscar os ciganos, eu não protestei porque eu não era cigano. Depois vieram buscar os imigrantes, e eu não protestei porque não era imigrante. Depois, vieram me buscar e já não havia ninguém para protestar”. Cuidado, eles querem negar e acabar os seus direitos e negociar a soberania do país. Vamos mostrar que o Brasil tem povo e não público.
