No colégio, em todo o Ensino Fundamental, eu quis ter várias profissões. Quis ser escritora na quinta série, geóloga na sexta, bióloga na sétima e cantora na oitava. Mas no Ensino Médio, tive que decidir porque precisava ranquear nos simulados e, pensando no quanto eu amava escrever e ler, optei pela Comunicação. Pesou muito saber que escritores como Clarice Lispector e Nelson Rodrigues eram jornalistas. Talvez fosse um meio para escrever e ser reconhecido.
Passar no vestibular para uma Universidade Pública foi difícil, mas bastou uma vez. Ao chegar no Centro de Humanidades, há 24 anos, vi outros estudantes que, como eu, não tinham muita ideia do que era ser jornalista. Depois de mais de três anos entre cadeiras teóricas e práticas, cheguei finalmente à redação de um jornal para estagiar. Faltavam só três meses para eu me formar.
A zoada era grande. Os dedos furiosos nos teclados cinza dos computadores de tubo. Uns 30 telefones tocando ao mesmo tempo, gente falando… Até hoje, eu me arrepio lembrando da gente correndo pra terminar o texto antes do deadline, prazo máximo para a entrega, para não atrasar o jornal. Todo dia, a pauta era uma surpresa. O chefe de reportagem sentado atrás de uma bancada com seus rabiscos e releases para pautar os repórteres.
Eu não tinha a menor idéia de para onde seria enviada. Isso dava medo. Comparo ao artista quando sobe no palco. Tem que ter sangue frio ou nos olhos. Não dá pra ser em cima do muro. Você poderia ir para uma pauta no Jangurussu, para escrever sobre os impactos do chorume na vida das pessoas que moravam perto de onde era antes o lixão. Ou para entrevistar o prefeito ou o governador. Mas o que eu vou perguntar? Te vira, bacana!
Era frio na barriga, todo dia subindo aquelas escadas. Fiquei viciada nessa falta de rotina. E em olhar tudo nos mínimos detalhes no caminho para lá, porque talvez pudesse virar pauta.
Quando a estagiária era novata, saía com o repórter uns três dias pra ver como funcionavam as coisas. Ele fazia a matéria principal e a estagiária, a coordenada. Assim, nos primeiros dias, eu ouvia atenta a frequência do rádio, pra ver como voltaríamos pra redação, enquanto a Martinha escrevia apressada com os bloquinhos de resto de papel do jornal a fala do entrevistado. Rapidinho, eu aprendi as manhas de deixar minha letra garranchosa para captar tudo. Só não consegui desaprender. Também aprendi que o melhor Pó de Guaraná da cidade ficava na rua Assunção, e dava tempo de tomar um copão antes de voltar para a redação nas pautas do Centro.
Nesses tempos de estagiária, o olho era atento para observar se a matéria sairia assinada no dia seguinte. Todos aguardavam ansiosamente por esse momento de glória. E se virasse capa?
Em dois meses como estagiária, consegui as duas coisas, embora tenha sido por um assunto inusitado, entrevistando alguém de quem as pessoas fugiam. A manchete “Carne de jumento vira mortadela no Rio de Janeiro” me rendeu muita zoação. E foi logo a primeira!
Depois de passar pela Coluna Social, entre muitas viagens e aniversários que viravam notícia, o que faço até hoje, passei por outras editorias, mas a minha preferida sempre foi a de Cidades.
Quando saí do jornal, fiz um freela pra uma revista de decoração e passava as tardes nos apartamentos chiques da Beira-Mar e as mansões das Dunas e do Porto das Dunas, observando. Depois, traduzia meus garranchos voltando pra casa de trem, saindo da Estação João Felipe. Que contraste!
O que eu sei é que ser repórter é ver pauta em todo canto. É atender ao celular com um “redação” antes do alô, porque aquele costume já enraizou. É segurar o choro na hora de entrevistar os familiares no velório de alguém que você conhecia e também ao ouvir aquela mãe que nunca saiu do hospital porque o seu filho espera um transplante de coração desde que nasceu.
É ficar com ódio por ter sido escalado para trabalhar no Réveillon e, depois de chegar às 4 da manhã em casa, com duas páginas de anotações de bêbados, seguir pra escrever na redação do jornal às 9 e descobrir que vai ter que espremer tudo em cinco linhas.
Ser repórter é sentir aquele frio na barriga só de lembrar dessa rotina louca, mesmo passados tantos anos. Uma vez repórter, sempre repórter. Por isso, sigo escrevendo o que pude observar nas entrelinhas das notícias. Tem experiências que sei que não viverei nunca mais e lugares que deixaram de existir. Acabou virando parte de mim e das crônicas que escrevo, como essa, em homenagem ao ofício que tem data comemorativa no próximo dia 16. Parabéns aos colegas que seguem na profissão.
