“Flâneur” é uma palavra de origem francesa significa ser um “passeador”, pessoa que anda livremente pelas ruas. Seria um detetive amador e investigador da cidade. Foi usado por Walter Benjamim, o carioca João do Rio e o poeta francês Charles Baudelaire, que diz: “Para o perfeito flâneur, é um imenso júbilo fixar residência no movimento. Estar fora de casa, e, contudo, sentir-se em casa onde quer que se encontre; eis alguns dos pequenos prazeres desses espíritos independentes”. Ou seja, o flâneur é um “batedor de perna”. Mas essa era uma palavra no masculino. Quando a palavra apareceu, ainda no século XIX, lugar de mulher era dentro de casa. Aproveitar a cidade era coisa de homem.
O mundo e a rua sempre foram minha paixão. Levei muitos carões por ser assim, desde muito jovem. “Essa menina não para em casa”, era o que mais ouvia, quando adolescente e jovem adulta. E o que mais gostava era exatamente esse andar livre pelas ruas, apenas para observar, conhecer. Comer em lugares diferentes, apreciar novas vistas, ver gente e não necessariamente acompanhada.
Parte dessa fome de ver o mundo foi satisfeita sendo repórter. No entanto, quando deixei de trabalhar com isso, a saudade ficou. Permaneci maturando esse sentimento até que ele brotou no meu livro Cidades Invisíveis, que recorda algumas dessas vivências pela cidade e os aprendizados das pesquisas sobre Fortaleza e ouvindo os mais velhos.
Porém, para poder passear pelas ruas, tive que me fazer de desentendida dos perigos por ser mulher. Me arrisquei inúmeras vezes, fazendo de conta que não havia o risco de sofrer violência.
Quando era estudante de Comunicação, parte da pesquisa de campo da minha monografia fiz andando sozinha em um trilho ermo em Caucaia. Uma das minhas fontes era o pajé indígena do povo tapeba, Zé Tatu. Não tinha companhia. Ou ia sozinha, ou ficava sem entrevistar. Fazia isso aos domingos, dias em que o movimento era ainda menor. Era o único dia em que eu podia ir, porque trabalhava durante a semana.
Mais tarde, me arrisquei de novo ao fazer três viagens sozinha com minha filha de menos de cinco anos. Entre os riscos, estavam perder a menina no aeroporto, ela correr e ser atropelada, ou sofrer algum mal junto com ela, por estarmos sozinhas. Mesmo com medo, fui e ainda me juntei à minha mãe e éramos três aventureiras mulheres em São Paulo. Sem uber e apenas com uma noção dos lugares, o trio pegava ônibus e metrô e ia conhecer museus e outras atrações que coubessem uma criança.
Sem saber direito onde estávamos, adentramos a cracolândia quase anoitecendo. Para nossa sorte, pegamos o caminho certo na hora exata. Talvez se tivéssemos ficado perdidas mais tempo, não pudesse estar contando essa história.
O tempo foi passando e fui dando ouvidos aos perigos que Fortaleza tinha, de fato. Fiquei caseira à força, pelo medo de ser assaltada, morta ou estuprada e fui perdendo minha autonomia. Desaprendi a andar de ônibus, esqueci alguns caminhos pela falta de costume. Só andava acompanhada e de carro. Fui esquecendo como eu era aventureira e desenrolada. Me resignei e aceitei a meia verdade de que ser mulher é estar exposta a muitos perigos.
Estou voltando a ser a “rueira” de antes. Acredito que o marco maior foi a ousadia de pegar um carro por aplicativo sozinha às 4h30 da manhã para ir caminhar na beira-mar. Sempre tinham me dito que era perigoso andar sozinha de noite ou de madrugada. Infelizmente, é verdade porque quase uma dezena de mulheres já foi estuprada em nossa cidade nessa situação.
Tenho muita sorte e posso estar brincando com ela, mas prefiro isso a ter que engolir minha vontade de viver a cidade do jeito que eu tiver vontade. Que os anjos da guarda continuem fazendo o seu trabalho enquanto a segurança não for plena. Eu não quero mais viver trancada e com medo por ser mulher.
