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Sei que nada será como antes, amanhã

Lá estava eu, como sempre, exercitando o meu direito político de cidadão. Desta vez, contra a PEC da Bandidagem, no domingo (21). Naquela manhã ensolarada, acordei pensando na frase: “Sei que nada será como antes, amanhã” da canção “Nada será como antes” de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos. Ao final da tarde, cantarolando, fui “sem lenço e sem documento” à passeata organizada pela turma bem intencionada da esquerda. Na caminhada pelo velho e bom calçadão da Praia de Iracema, bateu a nostalgia – saudades dos colegas e amigos de luta que partiram e não mandam notícias do mundo de lá. Para a minha alegria, comecei a encontrar a turma de bares e de outros carnavais, professores maduros analógicos, mas ainda engajados na eterna luta coletiva de crônicos problemas remanescentes do fim da ditadura, e estranhamente não encontrei jovens professores digitais. Na caminhada, deparei-me com o experiente e competente jornalista desse querido jornal. Entre uma rápida conversa e outra sobre colunas, crônicas e aquele movimento político, um sujeito humilde recolhendo latas que estava próximo e ouvindo a conversa, levantou a cabeça e de súbito disse: “Eu estou pegando latas para juntar com o dinheiro do Bolsa Família e sustentar a minha família”. E você tem quantos filhos? De pronto e de forma explicativa, respondeu: “Tenho três filhos. Se não fosse esse Bolsa Família, não teria como sustentar. Eu vou sempre votar nesse Lula, até ele morrer. Ele ajuda os pobres”. Eu não sei o querido repórter, mas continuei a caminhar pensando e remoendo aquilo tudo. A esquerda festiva acabou organizando com sucesso um movimento de rua regado a shows pelo Brasil contra a PEC da Bandidagem, para “desespero” da extrema-direita e facções políticas, e de muitos formadores de opinião da imprensa. Na manhã seguinte, um apresentador de um programa de rádio local que tem muita audiência saiu com essa: “No Rio de Janeiro foi preciso a esquerda levar artistas consagrados como: Caetano, Gil, Chico Buarque e Djavan para a esquerda marcar presença”. Sim, lá o movimento foi organizado com direito a shows de artistas, – diga-se de passagem, que nos anos 60, quase sempre participavam das passeatas de mãos dadas com os jovens secundaristas e universitários, operários, intelectuais e professores lutando pelas causas populares e pela democracia no período sombrio do regime civil-militar. Além disso, cada um utiliza-se das armas e artes que tem. A extrema-direita, a turma do Centrão e do agronegócio contratam por milhões a turma do sertanejo, – com todo o respeito aos verdadeiros sertanejos. Demonstrando que o povo na rua e não de mimimi, do TikTok, Instagram e Facebook tem poder, a turma da direita “engavetou” a tal PEC da Bandidagem e o governo ainda aprovou por unanimidade a isenção do imposto de renda de quem ganha até 5 mil reais por mês. Enquanto isso, Trump como bom neoliberal, tenta impor pela segunda vez o shutdown, ou seja, busca enxugar o orçamento federal e a máquina estatal, reduzindo salários e demitindo milhares de servidores públicos, – sonho da extrema-direita da turma daqui. Por sinal, essa nossa elite conservadora conseguiu imitar e reproduzir o ideário norte-americano, inclusive, em relação às drogas, à violência urbana e educacional de estudantes matando estudantes a tiros dentro de escolas como aconteceu em Sobral City. Bob Marley tinha razão: “Você nunca encontrará justiça em um mundo onde os criminosos fazem a lei”. Pois é, sou um professor, compositor, e agora, metido a cronista contemporâneo que também denuncia dessa realidade de injustiças e de desigualdade. No domingo (5), aos 62 anos, a natureza ainda está permitindo o convívio com ela e sendo muito generosa com a minha aparência e força mental e física. E agora, bebidas adulteradas! Sei que nada será como antes, amanhã.