“De volta aos 17/ Depois de viver um século/ É como decifrar sinais/ Sem ser competente”
Voltei às sensações faiscantes da adolescência com o recente show de Zizi Possi no Cineteatro São Luiz. Quando ela cantou o clássico “Volver a los 17”, lembrei de como eu era antes da maioridade, nos tempos do Ensino Médio. Recordei o exagero, as cores fortes das paixões, as decepções que me faziam pensar em morte.
Até os 17, eu imaginava que partiria da Terra com a virada do milênio, que traria com ele um apocalipse e o fim do planeta. Tinha pressa em viver não apenas por isso, mas pelos próprios hormônios.
Dessa forma, todo olhar correspondido trazia com ele a possibilidade da parceria quando o meteoro chegasse, tal qual os filmes apocalípticos que pipocaram nos cinemas. As parcerias tinham que ser para sempre, porque o sempre eram os poucos anos antes que 2000 chegasse.
No decorrer de 1999, as transições foram acontecendo. Um relacionamento longo acabou, tentamos reatar, mas a despedida foi inevitável, cheia de torrentes de lágrimas, poesia e muito drama.
Com Per Amore da Zizi Possi, tema romântico de uma das Helenas de Manoel Carlos, a da novela Por Amor, chorei as desilusões e imaginava que a solidão seria inevitável. Isso transbordou em criatividade na escrita, centenas de horas de conversas com as melhores amigas. Também na tradução da canção em italiano em letras caligráficas na agenda feminina azul daquele fatídico ano.
No show, deixei que as lágrimas, hoje, de uma mulher que já passou dos 40 e sabe que a vida é cheia de possibilidades, transbordassem meus olhos e corressem no rosto quando a Zizi cantou Per Amore no Cine São Luiz, cenário de muitas das histórias de amor que vivi. Ao meu lado e atrás, na plateia, apenas desconhecidos. Esse também era o meu primeiro show solo. Zero vergonha por ter ido sozinha e menos ainda por me emocionar.
Esse não era mais um choro de lamentação pelo fim de um romance que eu jurava ser eterno. O tempo passa e traz com ele as experiências que me deixaram, surpreendentemente, mais otimista.
Por algum milagre do destino, aprendi que posso me derramar, ser intensa quando amo e limpar a poeira e as feridas quando tudo acabar.
Não foi sempre assim. O meu natural é ser tudo ou nada. Geralmente, não sei queimar a chama da paixão devagar, eu apago.
Diferente dos tempos adolescentes, não tenho a menor ideia de quantos anos ainda terei nessa terra. O apocalipse continua rondando, mas não temos nenhuma data prevista. Se o meteoro chegar, caso não tenha um amor para segurar a minha mão, não vou morrer por essa ausência.
Minha capacidade de sentir mudou com o passar das estações. Não é mais uma avalanche, uma catarse que arromba meu peito. Por hora, sinto o chão firme debaixo dos meus pés. Não sei se esse é o trabalho da terapia ou da experiência, tampouco se essa calmaria é definitiva. O tempo, o mesmo que me trouxe esse sossego de agora, é quem vai dizer.
