O “Guerreiro Menino” após vinte e cinco anos. Raimundo, como é carinhosamente chamado pelos amigos e pela turma mais próxima, não foge da luta, apenas do frio do mês de julho no Rio de Janeiro. Bate em retirada e vem curtir o sol, o céu da praia e o luar do velho e bom sertão da terrinha. Na última sexta-feira (25), no camarim do Iguatemi Hall, como grande profissional que é, estava concentrado. Entre o camarim dos músicos e o seu, falou-me: “O show vai ter outro formato”. Em relação ao repertório e à sonoridade musical, o formato não divergiu muito do icônico show do Centro Cultural Dragão do Mar de Arte e Cultura, em 2000, em comemoração aos seus 50 anos. Fagner, acompanhado de uma banda composta de maestros, apresentava ao grande público suas canções de sucesso com arranjos diferentes que emocionavam a todos. No meio daquela multidão agitada, o cineasta Rosemberg Cariry e sua equipe gravaram o espetáculo, cujo material de gravação rendeu a Fagner o inesquecível DVD. Tudo bem, o show no Iguatemi Hall não tinha aquarela, plateia de quarenta mil pessoas como no Dragão do Mar, aberto ao público. No espetáculo de sexta-feira, o valor de uma mesa chegava a quase o valor de um salário mínimo e estava lotado. Conclusão: Raimundo é querido por todos, abastados e não abastados. Em 2000, diante das quarenta mil pessoas, a responsabilidade foi tanta que ao terminar o show Raimundo já desceu do palco, provocando. No “Making of” do DVD, contou: “Era uma emoção tão grande que eu esqueci de criar. Eu fiquei como todo mundo, cantando e batendo palma. Eu esqueci que estava trabalhando, inclusive com uma superbanda de uma sonoridade que arrancou, por várias vezes, muita emoção e aplausos dos fãs e da plateia”. Após vinte e cinco anos, e agora, comemorando cinquenta anos de carreira, Raimundo produziu e estruturou o show no mesmo formato de 2000. Desta vez com uma banda formada por grandes músicos cearenses, com exceção do saxofonista e maestro Spok, pernambucano. Neste show, Raimundo não esqueceu que estava trabalhando. Muito pelo contrário, inicialmente, parecia desconfortável com a sonoridade do seu violão. Em alguns momentos, chegando a tocá-lo com muita força e com certa agressividade. Chamou-me atenção, pois Fagner não gosta de ver ninguém tocando violão como se estivesse agredindo-o. Parecia preocupar-se mais em reger e conduzir a banda. Em alguns momentos, irritou-se com a luz em seu rosto, falou palavrão, no entanto, mostrava-se com um grande vigor físico, sentando e levantando de uma cadeira posta no palco. Fazia tempo que eu não o via com tanto prazer e vontade de cantar – como disse o Gonzagão: “o homem endoidou!”, soltou a voz e cantou muito – tudo que tinha direito: “Noturno”, “Jura Secreta”, “Asa Partida”, “Revelação”, “Espumas ao Vento”, “Deslizes”, “Guerreiro Menino” quando fez uma grande e merecida homenagem a Gonzaguinha, seu amigo e compadre. Antes de cantar, “Jardim dos Animais”, dele e Fausto Nilo, perguntou ao público pela presença do amigo e parceiro que estava sentado em uma das últimas mesas da grande plateia. Fagner insistiu pela presença do amigo ao palco, e como não o via disse: “Você, como sempre, furão!” Mas, em seguida, e em alto e bom som, falou: “Eu te amo Fausto Nilo”, arrancando aplausos. Pediu desculpas a plateia pelos nomes feios, agitou a banda e tome forró. Olhei ao redor e a “noite estava posta sobre a mesa” em cada canto, com alegria para todos e para o querido artista.
