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Quem está cozinhando para quem?

Durante muito tempo, a lógica da cozinha parecia simples: alguém cozinhava e alguém comia. Quem estava na cozinha...
Foto: reprodução

Durante muito tempo, a lógica da cozinha parecia simples: alguém cozinhava e alguém comia. Quem estava na cozinha escolhia os ingredientes, pensava o preparo, definia o prato e a forma de servir. Quem estava do outro lado escolhia entre as opções disponíveis.

Hoje, essa relação é bem diferente. O consumidor passou a participar muito mais daquilo que chega ao prato. Quer mais proteína, menos açúcar, menos carboidrato. Não come determinado ingrediente. Tem restrições, preferências, objetivos e hábitos que precisam ser considerados.

E a gastronomia precisou aprender a ouvir tudo isso. Vejo essa mudança como algo positivo. A comida precisa acompanhar as pessoas e a forma como elas vivem. A questão é saber até onde.

Porque existe uma diferença entre adaptar um prato e perder a identidade dele. Personalizar uma refeição não é simplesmente retirar aquilo que o cliente não pode ou não quer comer. É preciso pensar no que entra no lugar, como os sabores se comportam, o que acontece com a textura, com o equilíbrio e com a própria proposta daquela comida.

Uma comida sem determinado ingrediente pode continuar sendo muito boa, uma refeição mais leve não precisa ser sem graça e uma preparação pensada para uma necessidade específica não precisa abrir mão de técnica.

É aí que eu acho que a gastronomia vive um dos seus desafios mais interessantes hoje. O cozinheiro precisa ouvir mais o consumidor, mas também precisa ter repertório suficiente para transformar essa necessidade em comida de verdade e lembrar que às vezes não dá pra fazer e ponto final; cabe ao cliente optar por outra coisa. Porque atender a uma restrição é uma coisa e saber cozinhar bem dentro dela é outra. 

A cozinha contemporânea pede profissionais mais atentos ao comportamento de quem come. Pede estudo, criatividade e disposição para mudar, mas também pede conhecimento. Conhecimento para saber o que pode ser substituído, o que não pode, o que precisa ser preservado e, principalmente, como fazer com que a pessoa não sinta que está abrindo mão do prazer de comer. 

Só não pode esquecer que, no meio de tantas escolhas, restrições e novas necessidades, ainda existe uma coisa muito simples que continua sendo a razão de tudo isso: comida boa.