
Depois do meu casulo se abrir, no primeiro de janeiro, como eu contei aqui na primeira crônica, passou apenas uma semana para que os voos ficassem mais lentos. A vida é assim, uma montanha russa, tem um gosto agridoce. Eu já aprendi um pouco sobre isso nessas quatro décadas de vida.
Por uma tontura, minha mãe caiu de costas e quebrou uma vértebra, na coluna lombar. Para tratar a dor, passamos duas noites internadas no hospital referência de trauma do Ceará, o Instituto Dr. José Frota, um lugar cheio de emoções fortes, que merecia uma série de crônicas. Ela teve alta, graças a Deus, já está em casa e consegue se movimentar.
Com esse acontecimento, precisei modificar minha rotina e retornei ao apartamento onde morei por 30 anos para dormir com ela. Lá, reencontrei meus fantasmas, o que me deu alguns calafrios. Tem lugares em que as paredes, mesmo pintadas com outras cores, são impregnadas com a cartela de tons de outros tempos. No meu caso, uma boa parte dessas cores e desenhos, eu queria esquecer. Porém, nem sempre a mente obedece a gente.
Naquele pequeno espaço de 52 metros quadrados, eu cresci, chorei, gritei, ri, amei, tive medo. Ao me encostar na janela, eu consigo lembrar de quando assistia Tieta e pulava para ver o que tinha do outro lado porque não alcançava o batente.
No mesmo armador em que coloquei a rede nova para dormir, eu coloquei outras redes para fazer adormecer os meus dois filhos incontáveis vezes. A janela da sala eu preenchi de uma ponta a outra com minhas roseiras quando eu tentava colorir o meu desânimo nos meus dias mais cinzentos.
No quarto da frente, dormiam os meus pais quando eu era criança. Quando me casei, herdei aquele cômodo, que depois se tornou o quarto dos meus filhos. Hoje, minha mãe pegou o quarto de volta.
Da escada, hoje muito desgastada, eu usava os degraus como os cômodos para a minha casa imaginária da Barbie. Apostava uma perigosa corrida com as crianças dos vizinhos, o que me rendeu alguns machucados.
Adolescente, ouvi e respondi muitas declarações de amor embaixo daquele teto. Toda vez que passo por ela, os fantasmas dos amores perdidos reaparecem. Surge até mesmo o da minha vizinha, que era a minha figura materna por mais de uma década e que dividiu aquela escada comigo nos 30 anos em que morei por lá, a dona Maria das Neves Teles, que o Alzheimer levou há uns seis anos.
Depois de duas noites mal dormidas naquele apartamento que me viu crescer, eu saí meio chorosa para resolver a matrícula da minha filha. Atormentada pelo medo de me acidentar e ter que ir para o IJF de novo, dessa vez como paciente, porque precisei pegar um moto uber, a minha mente vagava enquanto os olhos molhavam e escorriam. Eu me sentia só. Não tinha ideia de como ia administrar tantas questões. Vivo equilibrando um monte de pratos. Mas quem não é assim?
Ao chegar no trabalho, me surpreendo com dois pequenos passarinhos piando na grade da repartição. Seus bicos escancarados e as plumagens meio bagunçadas denunciam que devem ser pássaros crianças. Terão caído da árvore?
O motorista do aplicativo diz que eram sanhaçus. Mas, com o peito amarelo, deveriam ser bem-te-vis, o que confirmei quando os pais deles apareceram com comida. Um trouxe uma semente e o outro, um pequeno besouro.
Com essa cena simples, eu me esqueci por um instante do choro, das preocupações e segui sorrindo para mais um dia de trabalho. É, Deus sabe como mudar meus pensamentos e espantar meus fantasmas. Ainda bem.
