*Obra “Jangada na Areia” é de autoria do artista plástico autodidata cearense Demeilson Ferreira. Desenhista e pintor, tem obras em vários estados brasileiros e países como França, Portugal, Canadá e Estados Unidos. Com várias exposições em nosso estado, o artista também coleciona várias participações em publicações literárias. Seu perfil no instagram é @demeilsonferreira
Almofala não era mais um destino impossível. Quase não consegui dormir de ansiedade na véspera da viagem para aquele destino tão esperado. Em três horas de Expresso Guanabara, mais uma de carro, chegava na casa do meu tio, em Tucuns, em Amontada e era recebida por sua esposa. Uma mesa tão farta que me deu sono depois do almoço.
Na tarde e na noite do sábado, levamos o tempo nos atualizando sobre as notícias dos
parentes e da sua vida por ali. Minha última visita tinha sido há mais de 20 anos. Era tanto
assunto que um emendava no outro e não queríamos parar. Quando nos demos conta,
passava das dez da noite.
Adormeci feito uma pedra na rede e enrolada até o pescoço, porque fazia frio. Acordei com
o barulho do coco sendo rapado para nossa tapioca antes de ir.
Um frio na barriga me toma. Estou com medo de acontecer algo no caminho. Enquanto eles
ajeitam as sacolas para a viagem, fecho os olhos e peço a Deus que nos proteja na estrada.
Tudo tranquilo no trajeto entre Amontada e Itarema. Consigo me acalmar, mas, por vezes,
quero fazer igual criança pequena e perguntar se estamos perto. Nem preciso, porque a estrada é bem sinalizada e sei dos marcos do caminho, como o parque eólico na entrada da cidade. Ali, já parei de madrugada para observar as estrelas no caminho para o meu pai.
O distrito de Almofala é pequenino. Assim que o nome aparece na placa, já conseguimos ver a torre da igreja. A rua principal ainda tem casas com calçadas altas e paredes grossas.
Imaginei uma igreja baixa, como a do Guriú e me espanto com a altura. Imagino logo o
tamanho dessa duna que enterrou a igreja. Como pode? Parece mentira!
Uma pena que a igreja esteja fechada… Tentamos descobrir se o padre mora ali por perto.
Não conseguimos descobrir. Pelo instagram, percebo que está celebrando em outra
comunidade. Olho para o alto da torre, arrodeio a igreja toda, aliso as três portas e dez janelas. Tiro muitas fotos e decidimos ir até a praia, como eu tinha pedido.
No caminho, encontramos uma escola indígena e entramos. Sinto no vento que sou
bem-vinda e que era hora de estar por lá. No salão circular, cada comunidade é nomeada.
São muitas! No meio do teto, um filtro de sonhos. A escola estava vazia, mas sei que
retornaria em outro momento. Daria um jeito de ir somente para conhecer a comunidade.
Quem sabe tenha uma festa como a da Carnaúba, dos tapebas? O torém dos tremembés, eu só conhecia da TV, do meu CD e dos livros. O quentinho no coração apontava o caminho de volta para o início de tudo, os tempos da monografia.
Meus tios chamam para continuarmos o caminho para a praia. Nenhum deles poderia se banhar porque ambos tinham feito cirurgias recentemente. Eu seria a única.
Apressada, tiro a roupa. Eu precisava mergulhar. Era urgente. Parecia que aquele, sim, era o encontro esperado. Os tremembés que conheci dos livros eram exímios pescadores.
Tinham o mar como ganha-pão, assim como meu pai, alguns tios e meu avô. Eu não sabia
pescar, mas o mar quase me engoliu em dois episódios que nunca esqueci. Tinha respeito e
fascínio por seu poder.
Pedi que a chuva esperasse um pouco. O céu estava carregado e senti alguns pingos leves
na pele. Entrei rapidamente e percebi a tranquilidade daquele mar verde. Era diferente. Pesado, morno. Um abraço de quem nos conhece. Senti o carinho na água salgada. Fechei os olhos molhados. “Nada acontece fora do tempo certo, filha. Acalme seu coração”, ouvi dentro de mim.
Vi meus tios parados no mesmo lugar e saí ao encontro deles. Nem sei ao certo quanto
tempo eles esperaram por mim. Pediram água de coco e bolinhas de peixe na barraca que eu ia passar meu ano novo. Que coincidência!
Voltamos para a igreja e a encontramos aberta. Ao transpor suas soleiras, me arrepio toda. Aliso as paredes grossas e caraquentas. Búzios pisados e óleo de baleia eram alguns dos ingredientes para compor a argamassa, a guia nos conta. Fotografo as janelas abertas para rua. Parecem quadros.
Observo a imagem de Nossa Senhora da Conceição, que traz aos seus pés as duas pontas de uma lua minguante. Lembro da Labareda dos indígenas, a imagem dourada que foi roubada. Fecho os olhos e faço uma prece ligeira, enquanto meus tios rodeiam o templo. De souvenir, levo uma blusa, presente do meu tio, um postal e um folder.
Compramos peixe e frutas em Itarema. Chegamos em casa enfadados. Depois de
almoçarmos peixe com pirão, seguimos para Amontada. Era a hora da volta. A despedida
com abraço forte e a promessa de não demorar tanto a visitá-los. Um chocolate e um café antes de pegar o ônibus.
Acho que nunca mais serei a mesma depois desse abraço do mar de Almofala. Vou voltar
outras vezes. Mal posso esperar pela hora de agradecer, quando o que pedi ao mar me for
entregue. Não posso deixar de ter fé.
