Pessoas cometem erros, e pessoas pequenas cometem erros o tempo todo.
Em geral, os erros das pessoas pequenas são menos graves. Mas isso não faz com que sejam menos castigadas. Frequentemente, as crianças recebem punições severíssimas por erros banais.
A ONU estima que “mais da metade das crianças do mundo, cerca de 1 bilhão, sofram alguma forma de violência, como maus-tratos, principalmente castigos corporais, bullying, abuso físico ou emocional”.
Uma parte importante dessa violência vem na forma de punições dos pais contra os filhos. Precisamos conversar sobre isso.
Em primeiro lugar, é importante lembrar da ciência. Todos os estudos sobre palmadas mostraram que bater em crianças sempre dá errado.
Não adianta nem citar uma referência única aqui, porque as conclusões são iguais todas as vezes: bater leva a comportamentos piores, enfraquece a confiança entre filhos e seus pais e não resolve os comportamentos que os adultos queriam mudar.
Trabalho com adultos e suas crianças há 15 anos e, muitas vezes, escutei adultos falando sobre suas infâncias, dizendo:
“Eu apanhava porque era muito arteiro”. Ou: “Eu apanhava, mas era porque testava a paciência de meus pais”.
Isso não é verdade. Nenhuma criança apanha porque se comportou mal.
Quando uma criança apanha, o motivo verdadeiro da surra é que seus pais não conhecem outras formas de resolver problemas, não sabem controlar a própria raiva e não acreditam que as crianças mereçam um tratamento melhor.
Para aqueles entre nós que apanharam quando crianças e se tornaram adultos honestos, com uma carreira estável, é difícil aceitar que tivemos algum sucesso apesar das surras que levamos. Não é que apanhar funcione; é que nós achamos um jeito de funcionar, apesar de termos apanhado.
Existem maneiras melhores de lidar com os erros das crianças. Uma delas é ajudar a criança a corrigir o erro que cometeu.
Um exemplo: a criança que derruba um copo de suco na mesa pode aprender onde ficam os panos, pegar um, secar e até mesmo ajudar a lavar a toalha mais tarde. Sem que ninguém perca a calma.
A criança que rasga o desenho de um amigo pode aprender a remendá-lo com fita adesiva, e mesmo assim podemos mostrar a ela que o desenho nunca mais ficará igual e, por isso, ela precisa tomar cuidado com os desenhos dos outros. Sem ser castigada.
Por outro lado, nós podemos nos tornar conscientes dos comportamentos que nós temos e que levam as crianças a cometerem mais erros.
Quando gritamos com as crianças e elas ficam nervosas, erram mais do que se estivessem tranquilas. Quando dormem mal, porque ficaram com uma tela nas mãos até a hora de deitar, também erram mais e são menos gentis do que se estivessem bem descansadas.
Na hora que uma criança comete um erro, nós podemos esperar para ver se ela vai corrigir sozinha ou ajudá-la nessa correção. Mas não é hora de ser violento, nem mesmo em palavras. É hora de ajudar a corrigir.
Mais tarde, com calma, podemos conversar com a criança e mostrar outros caminhos, outras ações possíveis.
A Lei Menino Bernardo
Onze anos atrás, em 2014, o Brasil passou a contar com a Lei Menino Bernardo, que estabelece o direito da criança e do adolescente de serem educados e cuidados sem o uso de castigos físicos ou de tratamento cruel ou degradante. Informalmente, ela foi chamada de Lei da Palmada.
No entanto, por um problema de redação, a lei não resolve o problema da violência física contra crianças. Ela prevê que o castigo físico é proibido apenas quando resulta em sofrimento físico ou lesão.
Pelo menos o primeiro desses aspectos é subjetivo, e a consequência disso é que, até hoje, um de cada três adultos diz abertamente que bate em crianças em casa, sem que haja qualquer tipo de interferência do Estado sobre essa atitude. O dado é do levantamento Panorama da Primeira Infância.
As crianças merecem que nós, adultos, sejamos melhores. Mesmo que a lei ainda não seja boa o suficiente.
