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Por uma Educação sem concorrência

O pensamento que dá base para esta dúvida é um em que a educação para o sucesso do indivíduo seria necessariamente diferente daquela que levaria à preocupação com a comunidade
Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Às vezes nos perguntamos: Será que é melhor educar a criança para o grande sucesso individual, para que se destaque, se torne uma excelente líder e um ponto fora da curva… Ou será que deveríamos educar a criança para o cuidado com o coletivo, para que se importe com os outros, o ambiente, e a sociedade?

O pensamento que dá base para esta dúvida é um em que a educação para o sucesso do indivíduo seria necessariamente diferente daquela que levaria à preocupação com a comunidade.

Para entender por que isso está errado, precisamos de uma história.

Maria Montessori, que era uma psiquiatra brilhante no final do século XIX, retirou um grupo de crianças de uma instituição psiquiátrica, e as educou. As crianças, antes abandonadas, aprenderam a ler, escrever, e foram aprovadas nos testes nacionais de educação da Itália. Maria Montessori, então, se voltou à pesquisa e passou os próximos dez anos estudando as bases da educação de sua época.

Uma década depois, trabalhou com sessenta crianças de dois a sete anos de idade, no bairro mais pobre e violento de Roma, cujos pais eram todos analfabetos. Maria Montessori e sua assistente alfabetizaram todas as crianças de quatro anos ou mais em seis semanas.

Ficou famosa em todo o mundo pelo que os jornais chamaram de “Explosão da Escrita” – crianças que adoravam escrever, e escreviam em tudo: papel, chão, mesas e paredes.
Mas disse: “Eles, que falam da explosão da escrita, entenderam tudo errado. O que ocorreu em nossas escolas foi uma explosão da alma!”.

Os de fora só viam aquilo que eram capazes de ver: Aquelas crianças eram casos de sucesso, pontos fora da curva, e grandes destaques acadêmicos.

Mas Maria Montessori estava vendo outra coisa: Eram crianças que passavam muito tempo umedecendo a terra da horta para que as minhocas ficassem bem e que davam bronca na professora porque a comida colocada para os bichos estava alta e eles precisavam se esticar.

As crianças de Maria Montessori cuidavam. Ensinaram seus pais a fazer arranjos de flores para colocar na janela, e na escola serviam primeiro o lanche dos colegas para depois servir seus próprios lanches.

Isso tudo acontecia porque o trabalho da escola era baseada no cuidado, e não no medo. Se a criança tiver oportunidade de uma educação que não é baseada no medo, a concorrência não tem motivo para existir.

Se a educação é baseada na curiosidade, na exploração, na escolha, a criança tem a chance de se desenvolver mais do que em uma educação focada na concorrência, enquanto aprende a cuidar dos outros.

Uma educação integralmente baseada no medo é o acontece quando temos notas, rankings, concursos, e colocações como primeiro, segundo e terceiro lugar.
Quando esse modelo é seguido, as crianças vivem sob a constante ameaça de não serem as melhores, as mais queridas, as mais premiadas. E a consequência é que não serão tão dignas de atenção, de valor, e de amor.

Se as crianças precisam temer a perda da atenção e do amor, passam a vida se protegendo, concorrendo. A concorrência trouxe nosso planeta à beira da catástrofe.

O erro de nossa pergunta, lá no começo desta coluna, é acreditarmos que essa é a única alternativa.

Uma educação segura e corajosa, sem medo e concorrência, conduzirá as crianças ao sucesso, sim. Elas lerão e escreverão melhor, aprenderão mais matemática, história e biologia. Mas também cuidarão dos outros, e seu sucesso será um pedaço do grande sucesso coletivo.

Foto: Divulgação

Para Conhecer Maria Montessori

Neste domingo (8), foi celebrado o Dia da Mulher. Maria Montessori foi não apenas a maior educadora do século XX, mas um dos nomes mais importantes da história da educação, incluindo homens e mulheres. Para conhecer mais sobre seu trabalho, a melhor dica é o livro Método Montessori: Uma Introdução para Pais e Professores, de Paula Lillard. Já se você quiser conhecer mais sobre a pessoa, faço um convite, leia a biografia que eu escrevi sobre ela em larmontessori.com.