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Por que você não consegue ouvir as estrelas, os pássaros e as canções?

Uma semana atípica como uma flecha atravessou as minhas memórias nos últimos dias, como nunca tinha acontecido nesses quarenta anos de magistério. Estranho que nesses dias eu andava pensando nesse tempo dedicado à educação e sobre a resolução do mestre Platão, o autor de “A República”, que, após quarenta anos destinados à educação, resolveu dedicar-se à música. Para Platão, o verdadeiro conhecimento vem da alma racional, por meio do intelecto e da razão, não dos sentidos. Acreditava que os sentidos apenas nos mostram a aparência das coisas com a visão, audição, tato, olfato e paladar. Para o mestre, os sentidos não eram fontes confiáveis de conhecimento verdadeiro. Pois é, o “conhecimento”, eu não sei, mas a audição da natureza, do canto dos pássaros, das águas, de uma canção ativam a memória e trazem grandes sensações. Eu venho interpretando, compondo e ministrando aula, tudo ao mesmo tempo – como deixar? Outro dia, conversando com um amigo professor mais velho sobre o assunto, ele falou-me o seguinte: “Nós, professores, sabemos que vendendo o conhecimento nunca vamos ficar ricos. O máximo que vamos ter é um certo status e se for muito bom, terá talvez um certo reconhecimento e afeto dos alunos e ex-alunos”. Em um único dia aconteceu-me o inusitado – fui reconhecido por vários ex-alunos de diferentes “status”: coronel, capitão, tenente, médico, funcionária pública, bancário, fitoterapeuta, mas o assessor parlamentar e músico levou-me à lugares, prazeres e memórias. Ao reconhecer-me em um ambiente público, aproximou-se cantarolando algumas das minhas canções e outras que cantava em sala de aula. Os depoimentos em alto e bom som diante daquela gente me deixaram sem jeito, calado e a memória a mil. “Professor, o senhor e o professor fulano de tal salvaram-me. Eu não sabia de nada”. E continuou: “Naquele dia em que o pássaro cantou na sala, foi determinante para eu me decidir pela música”. Era uma manhã chuvosa de sexta-feira e, de repente, o sol deu o ar da Graça. Propus, então, abrir as janelas para vermos o dia. Ao abrirem as janelas, um dos galhos da bela árvore ficou quase dentro da sala. Em um momento de silêncio, um pássaro cantou. Diante daquele canto que remeteu à minha infância na fazenda do meu avô e dos ninhos do pássaro no chiqueiro das cabras, e aquele cheiro de sertão. Na hora, fiz a seguinte provocação: “Quem adivinhar o nome do pássaro vai ganhar um ponto”. O pássaro repetia e repetia o canto e nada. De repente, um garoto acanhado falou: “Eu sei, professor. É um rouxinol”. Pois é, o ex-aluno que me deixou calado e sem jeito naquele ambiente público foi o que disse o nome do pássaro, confessou: “Naquele dia percebi que para ser artista, você tem que observar, sentir e ouvir a natureza”. Fiquei ali, sem palavras e a cabeça no mundo da lua. Inclusive, parece que pouca gente nesse mundo de meu Deus observa a lua, quanto mais as estrelas. E por falar em estrelas, certa vez, os bosquímanos do Kalahari ao perceberem que Laurens van der Post, explorador e autor de “O Mundo Perdido do Kalahari” “não ouvia realmente as estrelas cantarem, seus rostos mudaram. A alegria deu lugar à tristeza”. Para eles, “os sons do céu noturno eram reais, uma sinfonia da natureza, parte da alma do universo”. Essa perda de conexão com o mundo natural, sempre me assustou. Assim como os bosquímanos temo o esquecimento da alma da natureza. Apesar de estudar e pesquisar sobre a história do homem, eles esquecem que a natureza os permite conviver com ela temporariamente. Tento esquecer os céus cinzas de fumaça que encobrem as estrelas pelas bombas, drones, mísseis e “aeronaves grávidas de bombas que parem a morte”. A desconexão das coisas do mundo, a perda do pertencimento à vida ao redor, dá tristeza.