Aconteceu com quase todo mundo. Alguns adultos ainda se lembram dos gritos que ouviram. Outros enterraram as memórias doloridas de sua infância e esqueceram-se, ou coloriram essas mesmas memórias para poder dar risada do medo que tiveram, e enfrentar a vida sem recordar a todo momento o peso das dores infantis.
Crescemos, e muitas vezes gritamos com pessoas que têm metade de nosso tamanho, que são fracas, dependem de nós para comer, beber e dormir, e que confiam em nós como provedores da vida e do cuidado. Crianças que nos amam.
Mas, digo bastante às famílias com quem converso, nenhum adulto acorda pela manhã, espreguiça-se, lava o rosto, olha no espelho e diz: “Hoje, eu vou fazer o mal. Antes do dia terminar, comprometo-me a esbravejar com pelo menos uma criança frágil e indefesa.”
Ao contrário, todos os dias acordamos dispostos a fazer o nosso melhor. O que, então, explica que no meio do dia, nossas intenções tenham ido por água abaixo e as crianças que tentamos amar estejam lidando com o nosso pior? Com um tratamento que não daríamos a nenhum adulto?
A resposta é muito mais simples do que poderíamos imaginar.
Gritaram com você quando você era pequeno. Quando os acadêmicos estudam as palmadas e as surras, descobrem que quase universalmente, os pais que batem nos seus filhos foram crianças que apanharam de seus pais. Existem muitos adultos que apanharam e escolheram não bater, mas quase não existem adultos que não apanharam e escolhem bater.
Exatamente a mesma coisa acontece com o grito. Quando você era criança e gritaram com você, o seu cérebro de criança aprendeu que adultos gritam com crianças, que isso é normal, e é parte da educação.
Agora, você cresceu, e se você não fizer um movimento muito consciente, cuidadoso e direcionado, vai continuar gritando com as crianças para sempre. Esse aprendizado é antigo, está entranhado nos circuitos mais primitivos de seu cérebro (ativados pelo tronco cerebral e a amígdala em momentos de estresse), e você não vai se livrar dele só com força de vontade.
Vale a pena dizer que o problema é que o grito gera a sensação de alarme, medo ou terror.
No cérebro, essa sensação significa a ativação das duas regiões que mencionei: amígdala e tronco cerebral. Essas duas regiões, uma vez ativadas pelo medo, secretam cortisol por todo o cérebro, e monopolizam a atividade cerebral por algum tempo, impedindo a criança de usar o resto do cérebro para aprender, se desenvolver e se regular emocionalmente.
Se os gritos acontecerem com frequência, o cérebro da criança aprende a ficar em estado de alerta constante, com níveis de cortisol mais altos do que o normal, e os circuitos de aprendizado, desenvolvimento e regulação emocional funcionando abaixo de sua capacidade, porque o cérebro da criança nunca está tranquilo.
Um convite a parar de gritar
Parar de gritar com crianças não é um processo fácil. Eu parei há doze anos, depois de gritar com muitos alunos, mas bem a tempo de evitar gritar com meu filho. Deu muito trabalho. Hoje, ajudo outros adultos nesse processo. Nesta terça-feira (23), começaremos uma nova turma do Programa de Dez Dias para Parar de Gritar com Crianças. A inscrição é gratuita e pode ser feita pelo link larmontessori.com/gritos.
